Senso Crítico

Senso Crítico

terça-feira, 12 de setembro de 2017

O Google e a Hipocrisia Moderna



 Um dos engenheiros de software do Google enviou a toda a companhia um memorando em que afirmava que a empresa criou uma “câmara de eco ideológica”. “O Google”, escreveu ele, “possui uma série de preconceitos, e a ideologia dominante tem silenciado a discussão honesta sobre estes preconceitos”. A resposta do Google às afirmações do memorando consistiu, por um lado, em rebatê-las por palavra, proclamando o seu comprometimento com a diversidade e o diálogo aberto, e a confirmá-las, por outro, demitindo o engenheiro que as formulou.
Se você não enxerga a ironia da situação, então você tem provavelmente a mesma mentalidade que a “ideologia dominante” das universidades, dos meios de comunicação e das corporações – em particular, da indústria tecnológica – de hoje. Mas se você foi capaz de perceber a inconsistência da resposta do Google, então é provável que já tenha notado uma certa epidemia de “duplipensar” (termos orwelianos talvez se tenham desgastado pelo uso, mas isso só foi possível porque eles são cada vez mais apropriados à nossa realidade.
A controvérsia em torno do memorando do Google é só mais um exemplo de como o mundo nos diz que devemos ser tolerantes e acolhedores, permitindo que todas as opiniões e estilos de vida sejam expressos e vividos….a menos que a sua opinião ou estilo de vida entre em conflito com os temas dominantes da sociedade secular, em cujo caso você será publicamente desprezado, e o seu sustento e a sua honra correrão sérios riscos.
Querem fazer-nos crer, como diz uma recente representação do seriado Sherlock Holmes, que “Deus não passa de uma fantasia absurda, concebida para dar alguma oportunidade profissional ao idiota da família”. E quem o diz são as mesmas pessoas que sugerem, com toda seriedade, ser possível que estejamos vivendo uma simulação do tipo “Matrix”.
Insistem que a criança no ventre materno não é uma pessoa humana, embora já tenha orientação sexual firmemente determinada, mas não a própria “identidade de gênero” (trata-se, é claro, de um conjunto metafisicamente inconsistente de afirmações; mas, dizem-nos, a metafísica foi destruída de vez pelos filósofos iluministas, ainda que não nos expliquem como, exatamente, eles lograram tal efeito).
Dizem-nos que, para sermos saudáveis, precisamos sacrificar-nos, ter disciplina, que precisamos ser, efetivamente, atletas em treinamento (ou, como diríamos em grego, ascetas); nada de gordura saturada; nada de xarope de milho com altas doses de frutose; distância total dos carboidratos e do glúten; nem pensar em organismos geneticamente modificados ou vegetais com agrotóxicos – pelo contrário, como enormes quantidades de couve e de pescado sustentável, e você viverá para sempre. Na verdade, dizem eles, deveríamos sobretaxar ou banir por completo as chamadas “porcarias”, e é assim que, de uma hora para outra, o preço do seu refrigerante aumenta 12%. No entanto, à mera sugestão de que outros tipos de apetite devem ser moderados e controlados – como por exemplo o apetite sexual, que afeta não apenas a saúde e bem-estar das pessoas envolvidas no ato, mas tem ainda o potencial de gerar ali mesmo um novo ser humano – responde-se com uivos de: “Deixe o governo fora do meu quarto!” E quando perguntamos por que razão o governo teria direito de se intrometer na sua cozinha, mas não no seu quarto, a única resposta que podemos esperar são zombarias.
A expressão “hipocrisia” é frequentemente mal empregada, ou melhor dizendo, utilizada de forma imprecisa. Um hipócrita, na maioria das vezes, é visto como alguém que não vive à altura dos ideais que ele mesmo professa; esta caracterização, no entanto, parece insuficiente. Ninguém segue com perfeição o próprio código penal. De fato, todos somos pecadores, necessitados de misericórdia e da graça de Deus. Ora, se esta definição de hipócrita abrange todo o mundo e não é capaz de descrever algum atributo constitutivo da natureza humana, então ela não é lá muito útil. Mas se acrescentarmos a ela um outro elemento, as coisas começarão a ficar mais claras. Um hipócrita, com efeito, não é apenas o sujeito que diz “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. O hipócrita é aquele que diz “eu tenho permissão de fazer isto, mas você não”. Os hipócritas aplicam às outras pessoas Os hipócritas aplicam às outras pessoas critérios distintos dos que eles aplicam a si mesmos. Não se trata, portanto, de fracassar em observar as próprias regras; é uma questão de querer submeter os outros a um conjunto de regras diferente daquele a que o hipócrita mesmo se submete.
É justamente isto que verificamos nos exemplos acima. Em todos eles, as pessoas pensam ser perfeitamente coerente agir de forma incoerente. É em nome do diálogo aberto que o Google manda um funcionário embora, pelo simples fato de ele querer ter um diálogo aberto. Chamam a Deus uma “ideia absurda”, e ao mesmo tempo propõem como modelo explicativo do mundo uma ideia flagrantemente absurda. Afirmando que os fetos ainda não são seres humanos, o pensamento social da moda reconhece no feto, não obstante, determinadas características que só um ser humano poderia ter. Exigindo liberdade de toda e qualquer coação externa, o ativista pretende policiar nos mínimos detalhes a dieta alheia.
Ora, a raiz dessa hipocrisia não é senão o desejo de controlar os demais. Os hipócritas desejam que todos cumpram a cláusula do contrato, enquanto eles mesmos vivem livres e desimpedidos de qualquer obrigação. Os hipócritas tendem a usar o “plural não inclusivo” — noutras palavras, quando dizem “nós”, o que na verdade estão dizendo é: “vocês todos, menos eu”. A classe política, só, poderia oferecer-nos uma multidão de exemplos: há os que se opõem à isenção de impostos para ricos e, ao mesmo tempo, fazem de tudo para contornar a taxação e, assim, pagar muito menos do que o “povo trabalhador” que eles dizem representar; há os que elaboram leis de seguridade médica que oprimem a população com planos de saúde obrigatórios e impagáveis, reforçados ainda por cláusulas penais contra os inadimplentes, planos porém de que eles mesmos estão isentos; há os que dão a volta no mundo em seus jatos particulares, denunciando a emissão de gases e o desperdício de recursos; há ainda os que negam a concessão de cheques escolares e tecem loas ao sistema público de educação, quando os seus próprios filhos frequentam colégios particulares caríssimos. E a lista poderia crescer indefinidamente.
Em nome da liberdade, impõe-se a conformidade. É a “ditadura do relativismo” de que falava o Papa Emérito Bento XVI. É a ascensão da classe dos tecnocratas, que modelariam uma humanidade nova, enquanto eles mesmos permanecem intocados, inalterados, desimpedidos, como já prenunciava C. S. Lewis em A Abolição do Homem. Só uma visão alternativa, que arraste consigo os corações com a força da verdade, do bem e da beleza, pode fazer frente a tudo isso: uma visão do homem como imagem de Deus, digno em si mesmo, valioso, inestimável, criado para unir-se ao seu Criador. Assim entendido, o homem não pode ser controlado ou manipulado; antes, tem o direito de amadurecer, o que não vai acontecer enquanto o obrigarem a viver à base de couve.
Fonte: Crisis Magazine
Tradução, adaptação e divulgação: Equipe CNP –
https://padrepauloricardo.org

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

O Que? Você Quer Ser Freira?

Encontro-me na condição pouco frequente — ao menos no século em que vivemos — de ser mãe de uma jovem que viu, ao longo dos últimos dois anos, quatro de suas amigas entrarem para um convento. Três delas são postulantes e esperam ser admitidas à clausura de um Carmelo. Elizabeth, minha filha, participou de mais chás de panela de noivas de Cristo do que de noivas comuns. Não que isso seja ruim. Pelo contrário, é algo muito bom. Para mim, a parte mais difícil e complicada dessa experiência tem sido explicá-la aos demais, mesmo aos católicos com quem tenho mais contato. Flannery O'Connor estava certo ao dizer: "Descobrireis a verdade e a verdade vos fará esquisitos". Hoje em dia, uma jovem católica que abdica livremente do mundo para ir enclausurar-se num convento é algo que chama a atenção de qualquer pessoa.
Todas essas jovens que decidiram consagrar-se à vida religiosa são atraentes, dinâmicas, inteligentes e talentosas. Nenhuma delas teria problema no "mundo real" para encontrar um bom emprego, conseguir uma casa legal e arranjar um belo marido. Como tudo isso é verdade, a resposta mais comum que escuto depois de comentar que Hannah, ou Brigitta, ou Michaela ou Lisa foram para um convento é: "Nossa, mas ela é tão… bonita, esperta, capaz, talentosa!" A resposta vem sempre com um tom de perplexidade e pesar.
Não que eu mesma esteja imune a esse tipo de reação. Fui à tomada de hábito de Hannah, amiga de minha filha, e estive perfeitamente consciente, durante toda a celebração, de que os pais dela estavam sentados bem à minha frente no banco da igreja. Peguei-me meditando na quantidade de dinheiro que eles investiram na educação da filha; pensei nos feriados que eles passariam sem ela, na ausência que sentiriam no dia-a-dia, nos netos que nunca teriam. Estes pensamentos, para ser sincera, impediram-me de participar da alegria serena daquela manhã, e quando me dei conta, no café após a Missa, de que estava sentada cara a cara com os pais de uma moça que entrara para o Carmelo um ano antes, comecei a perguntar-me sobre a dificuldade de conviver com uma tal decisão. Os pais de Brigitta pareciam agradecidos, embora manifestassem um pouco da tristeza que sentiram quando a filha quis ir para a clausura; mas eles, ainda assim, repetiam vez por outra o mesmo refrão: "Brigitta está em paz".
Depois do café, foi a hora das despedidas. Meu marido, minha filha e eu entramos em uma sala em que Hannah, tranquila com seu hábito marrom e seu véu, estava sentada atrás de uma grade. Naquele pequeno cômodo senti-me confortada com um fato que fez desvanecer todos os pensamentos e receios que até então estive alimentando: Hannah estava radiante de alegria. Era uma alegria tão palpável que se irradiava, como se fora uma força física no quarto. Todas as minhas perguntas, dúvidas e medos desapareceram diante da força daquele contentamento.
Infelizmente, a maior parte de meus familiares e amigos católicos não testemunharam o momento. Eles são sensatos o bastante para não soltar um "Ah, mas que desperdício!" quando uma jovem decide tornar-se religiosa; mas, mesmo assim, o sentimento de pesar está claramente estampado em seus rostos, deixa-se entrever em seu próprio tom de voz. Na verdade, a grande pergunta que a todos aflige, mas que ninguém ousa confessar, é: por que uma moça que tem tudo fugiria deste mundo maravilhoso para esconder-se num convento?
Somadas à minha, essas reações fizeram-me pensar profundamente durante as últimas semanas. O que reações como essas dizem-nos sobre quem nós somos — não sobre quem dizemos ser, mas sobre quem realmente somos? Enquanto voltávamos para casa depois da cerimônia de tomada de hábito de Hannah, pensei comigo: "Essas meninas se comportam como se realmente acreditassem em tudo isso. Meu Deus, elas realmente acreditam". O que me veio à mente em seguida, é claro, foi: "E eu, também acredito?" O que a minha própria reação — perguntei-me — diz sobre o que verdadeiramente creio? Acaso tenho vivido como se cresse de fato em tudo isso? Se não, como seria a minha vida se eu acreditasse mesmo?
Não se trata de perguntas fáceis. Até certo ponto, estou com a consciência tranquila: sou sacramentalmente uma católica em união com a Igreja; criei três filhos, que são ainda hoje, como jovens adultos, católicos praticantes; dou aulas em uma universidade católica e conferências em minha arquidiocese sobre temas católicos; escrevo artigos para revistas católicas que são bem recebidos pelos leitores. Tudo muito bom, tudo muito bem. No entanto, minha reação à entrada destas moças num convento é um sintoma muito incômodo para ser ignorado. E não penso estar sozinha.
Vários anos atrás, uma jovem religiosa das Irmãs do Bom Pastor deu em um colégio católico local uma pequena palestra sobre vocações. Ela nos disse que, ao contar à sua família, aliás muito católica, que se sentia chamada e havia decidido entrar no noviciado, sua irmã exclamou, espantada: "Se eu soubesse que ia dar nisso, jamais teria feito aquela Oração pelas Vocações!" Outra jovem católica, depois de passar alguns anos sem namorar, apesar das muitas oportunidades, finalmente confessou à família ter sentido atração por outra mulher e que, por isso, estava decidida a viver castamente, como uma mulher católica. Foi então que um parente seu disse: "Que alívio! Graças a Deus por você ser apenas gay! Todos estávamos pensando que você ia se tornar freira".
Ora, o que tudo isso nos revela sobre o nosso mundo, em que as famílias têm cada vez mais facilidade em lidar com um filho gay do que com uma filha carmelita? A resposta, penso eu, é muito clara. Vivemos numa cultura em que tudo deve ser aceito, tolerado e até mesmo comemorado. Nesse mundo, nenhuma decisão pode ser condenada como muito radical ou estranha, exceto a decisão de consagrar inteiramente a própria vida — bela, talentosa, inteligente — a Cristo e somente a Cristo. Isso é muito esquisito, muito estranho, muito duro.
Mas talvez isso não devesse ser surpresa. Jesus, no fim das contas, nunca disse: "Segui-me, e ficareis bem na fita com vossos colegas!" Ele nunca disse: "Tomai vossa cruz, e os vossos amigos dirão: 'Que maravilha! Meus parabéns!'" O que Jesus disse foi: "Sereis odiados de todos por causa de meu nome" (Mt 10, 22). Ao longo dos Evangelhos, Ele avisa os Doze de que as pessoas rejeitarão violentamente a quantos O seguirem.
Edith Stein (irmã Teresa Benedita da Cruz) lembra-nos de que Jesus "pergunta a cada um de nós: Tu permanecerás fiel ao Crucificado? Pensa-o bem!... Se te decidires por Cristo, isto pode custar-te a vida". Edith Stein diz-nos que a cruz cria divisão "entre aqueles cujo principal amor é Deus e aqueles cujo principal amor é o próprio eu". Do mesmo modo, São Paulo ensinou que "a linguagem da cruz é loucura para os que se perdem" (1Cor 1, 18).
Poucos meses depois de Hannah ter entrado no convento como noiva de Cristo, participei de um chá de panela de uma jovem que iria casar-se dali a pouco tempo. Dias antes do casamento, recebi a notícia de que Lisa, uma das convidadas, estava prestes a ingressar, em coisa de um mês, numa nova e animada congregação de religiosas, as Escravas do Sagrado Coração de Jesus. Enquanto a futura esposa abria os presentes e exclamava de alegria a cada um deles, as mulheres já casadas sorriam e se olhavam entre si. Mary-Catherine, a jovem noiva, escolheu casar-se, e nós conhecemos bem essa escolha. Nós "percebemos" de que maneira a nossa vocação — a vocação para o casamento — é nosso caminho para o céu.
A vocação de Lisa para ser Escrava de Cristo, no entanto, nos é pouco familiar. A vocação matrimonial pode levar-nos para o céu, mas, como o Papa São João Paulo II sabiamente nos recorda, é a vida de Lisa que irá refletir, da forma mais precisa, o que será o Reino dos Céus: "A vida consagrada anuncia e de certo modo antecipa o tempo futuro, quando, alcançada a plenitude daquele Reino dos Céus que agora está presente apenas em gérmen e no mistério, os filhos da ressurreição não tomarão esposa nem marido, mas serão como anjos de Deus (cf. Mt 22, 30)" [1].
Uma das convidadas ao chá de panela de Mary-Catherine, ao ficar sabendo do chamado de Lisa, disse-me em particular: "Nossa... Então, nada de sexo, nem de marido, nem de filhos. E o que acontece se ela deixar tudo e descobrir depois que estava errada? E se esta vida aqui for a única que temos, e ela estiver abandonando tudo em troca de nada?" Trata-se, certamente, de uma questão desconcertante. Mas uma questão, ainda mais importante para o resto de nós, deveria ser: "E se ela estiver certa?"
Toda e qualquer vocação, quando aceita e vivida de modo adequado, é um caminho que nos conduz a Deus. Para muitos de nós, este caminho é o matrimônio; para outros, uma vida casta de solteiro. Deus nos dá tudo de que precisamos, e as nossas vocações pessoais estão perfeitamente ajustadas ao temperamento e às disposições de que Ele nos dotou. Mesmo assim, ainda vale a pena perguntar-nos, qualquer que seja o caminho que estamos trilhando nesta vida: "Como seria a minha vida se eu a vivesse como quem realmente tem fé? Eu pareceria estranho aos olhos do mundo? A minha vida é um sinal, uma contradição, uma pedra de tropeço? Se não, por que não?"
São questões sobre as quais vale a pena refletir.


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Ainda Existe Um Lugar


Ainda Existe Um Lugar


Venha sentir a paz que existe aqui nos campos
O ar é puro e a violência, não chegou
O céu bem limpo e muito verde pela frente
Uma vertente que não se contaminou
Pela manhã, o sol nascente vem sorrindo
E os passarinhos cantam hinos, no pomar
O chimarrão tem um sabor de esperança
E a criança traz o futuro no olhar

De tardezita, tem os banhos no riacho
Jogo de truco junto à sombra do galpão
Uma purinha que faz rima contra o mate refrão
E o cão que late contra o guaxo, no oitão

O anoitecer nos apresenta mais estrelas
Entre o silêncio que da paz, para o luar
De vez em quando um cometa incandescente
Se faz presente para um pedido repontar
Aqui a verdade ainda reside em cada alma
Se aperta firme quando
Alguém lhe estende a mão
Se dá exemplo de amor, fraternidade
Aos da cidade que não sabem pra onde vão

 

Sonhos de Uma Flauta


Sonhos de Uma Flauta


Nem toda palavra é
Aquilo que o dicionário diz
Nem todo pedaço de pedra
Se parece com tijolo ou com pedra de giz

Avião parece passarinho
Que não sabe bater asa
Passarinho voando longe
Parece borboleta que fugiu de casa

Borboleta parece flor
Que o vento tirou pra dançar
Flor parece a gente
Pois somos semente do que ainda virá

A gente parece formiga
Lá de cima do avião
O céu parece um chão de areia
Parece descanso pra minha oração

A nuvem parece fumaça
Tem gente que acha que ela é algodão
Algodão as vezes é doce
Mas as vezes é doce não

Sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
E o dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
Ah e o mundo é perfeito
Hum e o mundo é perfeito
E o mundo é perfeito

Eu não pareço meu pai
Nem pareço com meu irmão
Sei que toda mãe é santa
Sei que incerteza traz inspiração

Tem beijo que parece mordida
Tem mordida que parece carinho
Tem carinho que parece briga
Briga que aparece pra trazer sorriso

Tem riso que parece choro
Tem choro que é por alegria
Tem dia que parece noite
E a tristeza parece poesia

Tem motivo pra viver de novo
Tem o novo que quer ter motivo
Tem a sede que morre no seio
Nota que fermata quando desafino

Descobrir o verdadeiro sentido das coisas
É querer saber demais
Querer saber demais

Sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
E o dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
Mas o sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
O dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
Ah e o mundo é perfeito
Mas o mundo é perfeito
O mundo é perfeito...

 

Trem de Lata

Trem de Lata


Uma velha ferradura pendurada
Feito o sino dá licença na estação
Pra que o velho trem de lata em disparada
Chegue a tempo no outro lado do galpão

Orelhano não tem marca registrada
E o seu trilho é o próprio rastro pelo chão
Lá no cocho das galinhas tem parada
Pra o foguista abastecer o seu vagão

Lata aberta toda a volta vai a carga
Encontrada pelo meio do terreiro
E as fechadas onde a ponta não se larga
Eram só para vagões de passageiros

Toda vez que o pai chegava com sortido
O piazito ia correndo ver se vinha
Pra tornar seu trem de lata mais comprido
Entre as compras uma lata de sardinha

Mas o tempo foi passando e o que era lindo
Disse adeus ao sentimento conquistado
E o expresso fantasia foi sumindo
Do cenário pelo túnel do passado
Eram só para vagões de passageiros


domingo, 23 de abril de 2017

Manhãs de Abril

Manhãs de Abril - Oriza Martins
Foi-se o sol do verão
e ainda não é inverno
abaixo do Equador
na fresca manhã de outono
sopra um vento doce, terno
Se para alguns é o outono
do verão a despedida
para outros representa
a celebração da vida
da vida em recolhimento
no ventre da natureza
a voltar na primavera
em toda sua grandeza
Aproveito este momento
quero curtir a magia
misto de melancolia
que me enche de emoção
Se este abril vai passar
,para minha consolação
outros hão de retornar
me encantando o coração


sábado, 1 de abril de 2017

O Amor Cristão Não é o Amor de Telenovelas


Na homilia desta quinta-feira, na Casa Santa Marta, o Papa Francisco sublinhou a concretude do amor cristão. Comentando o trecho da Primeira Carta de São João – "Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece conosco e seu amor é plenamente realizado em nós" (1 Jo 4, 12) –, ele explicou que "permanecer no amor" de Deus não é tanto um êxtase do coração, "uma coisa agradável de sentir":
"Veja que o amor do qual fala João não é o amor de telenovelas! Não, é outra coisa. O amor cristão tem sempre uma qualidade: a concretude. O amor cristão é concreto. O mesmo Jesus, quando fala de amor, fala de coisas concretas: alimentar os famintos, visitar os doentes e muitas coisas concretas. (...) E quando não há essa concretude, pode-se viver um cristianismo de ilusão, porque não se entendeu bem onde está o centro da mensagem de Jesus. Não chega esse amor a ser concreto: é um amor de ilusão, como esta ilusão que tiveram os discípulos quando, vendo Jesus, acreditaram que fosse um fantasma."
O Santo Padre disse que a confusão em identificar o verdadeiro amor é fruto de um coração insensível. "Se você tem o coração endurecido, não pode amar e pensa que o amor é imaginar coisas. Não, o amor é concreto". Ele também indicou dois critérios sobre os quais se funda esta concretude do amor cristão:
"Primeiro critério: amar com as obras, não com as palavras. As palavras são lançadas ao vento! Hoje elas são, amanhã não são. Segundo critério de concretude é: no amor é mais importante dar que receber. Aquele que ama dá, dá... Dá coisas, dá a vida, dá a si mesmo a Deus e ao outro. Mas quem não ama, que é egoísta, sempre procura receber, sempre quer ter coisas, ter vantagens."
A contraposição que o Papa faz do "amor cristão" e do "amor de telenovelas" mostra a grande deturpação que os meios de comunicação têm feito da verdadeira caridade. De fato, são muitos os mass media "que ridicularizam a santidade do matrimônio e a virgindade antes do casamento"01, degradando o amor a puro "sexo" e transformando-o em "mercadoria", "uma 'coisa' que se pode comprar e vender", o que, no fim das contas, mercantiliza "o próprio homem"02. Sem falar da tentativa claramente manifesta de passar à sociedade uma visão totalmente abstrata de família, o que equivale a nada menos que a sua destruição.
Ao contrário, o Papa Francisco recorda que "no amor é mais importante dar que receber". A medida do verdadeiro amor não são os sentimentos, mas a entrega fiel e constante de si ao bem amado. Por isso, diz-se que "o ágape exprime-se geralmente de um modo silencioso e duradouro, sem muito espetáculo"03: na doação de uma mãe que renuncia aos projetos de carreira para cuidar de seus filhos pequenos, no sacrifício de um esposo que batalha diariamente para sustentar sua casa e proteger o seu lar, no filho que ampara os seus pais na velhice etc. Este amor, embora escondido e marcado pela experiência do sofrimento, traz à alma a verdadeira alegria.
"Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos" (Jo 15, 13). Em um mundo onde as pessoas parecem valorizar mais o eros que o agape, os cristãos são chamados a seguir o exemplo de Jesus Cristo, que doou-se até o extremo da Cruz. Como diz São Francisco de Sales, "o Calvário é a montanha dos que amam".