Senso Crítico

Senso Crítico

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

A Orquestra


Gosto de ir ver a orquestra.
Vou ouvi-la, também, mas gosto mesmo é de a ver: enche-se-me a alma de uma outra forma; junto à beleza da música o encanto de ver o homem ser como deve ser.
Dominar um instrumento musical leva muito tempo. É preciso tornar os gestos sólidos e finos. Exige o aperfeiçoamento constante de qualquer coisa que nasceu connosco, deve desenvolver-se dentro de nós e brotar mais tarde, com naturalidade, como a água da fonte.
Assim solta a flor as suas pétalas: após um longo processo.
Gosto de ir ver a orquestra. Um homem cresce longamente por dentro de si, num tempo grande de isolamento, em esforço e privação, com o sol do outro lado da janela, e depois parece que isso não lhe serve para benefício próprio. Depois apaga-se, mergulha numa zona mais ou menos escura, ao lado de outros como ele. Depois não se torna conhecido, não gritam o seu nome, não se torna rico.
Passa despercebido.
O belo som que produz – que longamente aprendeu a produzir – é incapaz de se encher de sentido sozinho. Alguns instrumentos podem ser ouvidos, com agrado, sem acompanhamento; outros, nem por isso… Mas cada um deles só se torna verdadeiramente grande quando se apaga e se faz esquecer, passando oculto, como simples gota de água, no mar maravilhoso que é a sinfonia.
E há uma obediência maravilhosa. Um senhor de aspecto frágil, já com certa idade e ar de sábio, tem nas mãos uma batuta e dirige com gestos ligeiros todos aqueles sons e todas aquelas vontades individuais. O violinista não se liberta quando lhe apetece. E não pode brilhar: deve conter-se, prendendo-se aos seus tempos próprios e ao papel concreto que lhe corresponde.
Há muitos olhos atentos à mão que segura a batuta. Não se sentem constrangidos nem se revoltam. Procuram é a fidelidade ao seu pequeno papel, a melhor forma de passarem despercebidos: a perfeição pequena que é necessária à grande perfeição da sinfonia.
Obedecem porque querem. E eu gosto de ir ver a orquestra também porque compreendo de novo que é possível obedecer com liberdade, e que não é humano fazê-lo à maneira dos escravos: com raiva e de má vontade.
Há qualquer coisa extremamente desagradável na escravatura. Não só naquela que era imposta e existiu abundantemente em tempos antigos, mas nessa outra que muitas pessoas praticam quando são contrariadas – porque a vida não os pode satisfazer sempre – no caminho errado da sua pequena ambição individual.
O homem livre escolhe obedecer, para que possa existir a sinfonia. É nela que ele se torna grande. E ama o seu papel, indiferente ao brilho, maior ou menor, que lhe corresponda.
Não há nada maior para fazer do que a sinfonia. O homem deseja ser grande e tem os seus sonhos. Mas se aquilo que sonha for verdadeiramente grande, ele não poderá realizá-lo sozinho. Um homem por si só não é capaz de construir uma ponte, ou uma estrada, ou uma universidade. Ou a paz, ou uma família. Não educará os filhos. Não será sequer capaz de se construir a si próprio.

É perdendo-se na sinfonia que ele se encontra a si mesmo do tamanho que sonhou.

O Último Patamar


Todos nós já reparamos, com toda a certeza, nos ataques – violentos e constantes – que são feitos contra a instituição familiar nos tempos que correm.
A família apanha pancada a torto e a direito. Apeteceria ter pena dela, se fosse uma pessoa.
Basta passar os olhos num jornal ou numa revista, ligar a televisão, reparar nas propostas de lei que, insistentemente, sobem e voltam a subir – mesmo depois de anteriormente derrotadas – aos parlamentos dos vários países.
Tudo é útil.
Tudo aquilo que, de uma forma ou de outra, possa servir para corromper a família e contribuir  para a eliminar da face da terra é incrementado, com meios poderosíssimos, em nome de qualquer coisa mal explicada que pretendem vestir de modernidade.
E apresentam-nos, em alternativa à família, como sendo as últimas conquistas do progresso humano, coisas que não são senão roupagens que pretendem tornar apresentáveis as mais antigas podridões humanas.
Como se a família fosse algo que pertencesse a uma época da história que estamos prestes a ultrapassar. Como se ela se pudesse abandonar, para dar lugar a algo mais atual, da mesma forma que se abandonaram as máquinas de escrever à medida que se foram generalizando os computadores.
Vamos assistindo a esses ataques…
É a intenção clara de impor na sociedade o aborto. A coabitação. O “casamento” de homossexuais e a possibilidade de adoptarem crianças. A atividade sexual desregrada, arrancada ao âmbito que lhe é próprio.
São as leis que favorecem o divórcio, e a ausência de leis que defendam e promovam as famílias com filhos.
É a criação de um ambiente de comodidade material e de egoísmo – “Segurança!… Segurança!”… – no qual os filhos não têm lugar, porque nada se opõe tanto ao egoísmo e à comodidade como os filhos.
É a tentativa de fazer passar – como sendo um facto moderno e racional – a ideia de um “planeamento familiar” que, no fim de contas (não é tão fácil reparar na contradição?), consiste em aprender as técnicas de não construir uma família.
E a outra ideia, a de que as crianças – não passam, para eles, de brinquedos vivos… – existem para os pais, e não os pais para as crianças (é talvez por isso que se avança tanto na investigação em embriões, de forma a que, qualquer dia, se possa escolher o sexo, as características, os pormenores do aspecto físico dos filhos… assim como quem vai à loja escolher uma boneca).
São, ainda, muitas outras coisas. Tantas, que uma família normal, com muitos filhos, já é olhada como um bicho estranho quando  passa na rua (sucede como quando alguém passa conduzindo um daqueles carros de museu que funcionam a manivela…).
No entanto, apesar de todos os ataques, e dos rios de dinheiro – não podemos ser ingénuos – que organizações poderosas gastam neles, a família não deixará de existir como aquilo que é: um nó de laços indestrutíveis, fundamentado na união – assumida em forma de compromisso livre – de um homem com uma mulher para sempre.
E todas essas campanhas são uma batalha antecipadamente perdida. E todo esse dinheiro é inutilmente gasto.
É que a família pertence à natureza humana, e não está na mão de ninguém mudar isso. Não é um estágio da evolução da humanidade, uma fase que depois se ultrapassa para se chegar a um patamar superior.
A seguir à família não há mais nenhum patamar: só o abismo.
Se não houvesse a família, não haveria homens, mas sim monstros (às vezes encontramos por aí alguns que não chegaram bem a ter uma família, nem nada parecido, e aquilo que neles vemos faz-nos pensar precisamente nisto).
Não acontecerá, evidentemente, aquilo que vou imaginar a seguir.
Mas se alguém muito poderoso e sábio, num dia muito futuro em que isto estivesse tudo perdido – num dia em que as orientações que agora se tenta impor tivessem vingado e conduzido ao desconcerto e ao isolamento gerais – se esse alguém se pusesse a magicar numa forma de organizar a sociedade de maneira a reconstrui-la; se quisesse arquitetar um sistema de formar novos homens que possuíssem firme consistência; se procurasse uma maneira de os homens estarem ligados uns aos outros por laços inquebráveis que os acompanhassem ao longo de toda a existência; se pretendesse que os homens nunca mais estivessem sozinhos; se desejasse inventar um caminho que de novo conduzisse à felicidade…
Então esse alguém, se fosse capaz, começaria por formar pequenas células, sãs e inquebráveis, que, depois de se juntarem a outras, viessem a constituir o tecido da sociedade dos homens.
Esse alguém, se fosse capaz, inventaria… a família!

Nós, que ainda a temos, devemos prezá-la como se preza um tesouro.

domingo, 24 de abril de 2016

Pensamentos


Pensamentos que me afligem
Sentimentos que me dizem
Dos motivos escondidos
Na razão de estar aqui
As perguntas que me faço
São levadas ao espaço
E de lá eu tenho todas
As respostas que eu pedi

Quem me dera que as pessoas que se encontram
Se abraçassem como velhos conhecidos
Descobrissem que se amam
E se unissem na verdade dos amigos

E no topo do universo uma bandeira
Estaria no infinito iluminada
Pela força desse amor, luz verdadeira
Dessa paz tão desejada

Pensamentos que me afligem
Sentimentos que me dizem
Dos motivos escondidos
Na razão de estar aqui

E eu penso nas razões da existência
Contemplando a natureza nesse mundo
Onde às vezes aparentes coincidências
Têm motivos mais profundos

Se as cores se misturam pelos campos
É que flores diferentes vivem juntas
E a voz dos ventos na canção de Deus
Responde todas as perguntas


sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O Rebanho



É certo que nós, os homens, nos temos animalizado.
Tornaram-se mais raros os comportamentos humanos: quero dizer comportamentos ditados pela inteligência e pela vontade; pela parte espiritual – a mais elevada – do nosso ser.
Procuramos encher a barriga, buscamos o divertimento, a comodidade, o prazer, aquilo que é fácil. Não nos interessam os sábios, os filósofos, os poetas, os santos. Não queremos ouvir falar de subir montanhas – interiores ou exteriores a nós -, de superação, de ousadia, de sacrifício. Aventuras… só aquelas que não tiverem necessariamente consequências, as que não comportarem um risco real – o que impede que sejam realmente aventuras…
Somos, cada vez mais, um pedaço de carne mole estendida à sombra. Olhamos, na rua, para uma multidão e cada vez temos mais a sensação de que não se diferencia muito de um rebanho, de que constitui uma massa amorfa sem individualidades.
E, no entanto, esse rebanho segue um caminho; obedece a indicações precisas, aceites por todos. Mesmo as coisas mais disparatadamente contrárias à nossa natureza, ao nosso bem, à nossa felicidade, são pacificamente aceites por todos.
Há alguém – há interesses – por trás da forma como, por exemplo, são orientados muitos meios de comunicação. Estes nossos tempos têm os seus “profetas” escondidos, que erguem o dedo e apontam caminhos que quase todos seguem docilmente, como ovelhas tontas a quem basta a sua dose diária de erva verde, de sombra e de descanso.
Transformar uma multidão de seres inteligentes em rebanho foi – está a ser – uma gigantesca tarefa, reveladora de grande inteligência. E , também, de muito desprezo pelos outros seres humanos.
Qual foi a tática? Foi, sem dúvida, complexa. Mas o seu elemento mais decisivo consistiu em fazer crer às pessoas que se estava a defender os seus interesses, os seus direitos e a sua liberdade. Como se esses “profetas” se preocupassem generosamente com os interesses das outras pessoas… Como se alguém tivesse visto essa gente a fazer voluntariado em hospitais ou a distribuir os seus bens aos mais pobres…
Esta linguagem – “os vossos direitos, a vossa liberdade”… – soa bem aos ouvidos de qualquer um… É atrativa, quase irresistível. Com ela conseguiram mudar a mentalidade de muitos e alterar o tom da sociedade.
Quando lhes interessou que diminuísse o número de nascimentos de crianças, procuraram que as mulheres passassem a estar fora do lar (“A condição e a utilização das mulheres nas sociedades dos países subdesenvolvidos são particularmente importantes na redução do tamanho da família… As pesquisas mostram que a redução da fertilidade está relacionada com o trabalho da mulher fora do lar”, lê-se no tenebroso Relatório Kissinger, pag. 151). Para isso, não fizeram leis que obrigassem a mulher a trabalhar longe de casa, porque isso apareceria claramente como um abuso e uma ingerência e se estava numa altura em que o mundo não admitiria novas tiranias. O que fizeram foi divulgar a ideia de que a mulher tinha tanto direito como o homem a trabalhar fora do lar. E as mulheres empertigaram-se… e a mensagem passou.
E não quiseram, pelo mesmo motivo, obrigar a mulher a abortar. Disseram-lhe que tinha o direito de “interromper a gravidez” porque a gravidez era um assunto apenas dela.
E não disseram aos casais que tivessem poucos filhos. Mostraram-lhes, simplesmente, como era bom consumir; que tinham tanto direito como os outros à qualidade de vida (ter muitas coisas…). Apenas lhes fizeram notar que com cada filho se gasta uma fortuna… e que cada filho que viessem a ter teria também o seu direito à qualidade de vida.
E, no início, não divulgaram diretamente o homossexualismo. Falaram às pessoas de liberdade sexual, da livre escolha de cada um nesse campo.
E não impediram os pais de educar os filhos. Falaram do direito à educação, concretizando-o em leis – obrigatórias!… – que encaixotam as crianças, desde tenra idade, em escolas que não são exatamente centros educativos. Nesses lugares – longe da vista dos pais – ensinam atualmente os jovens a terem relações pré-matrimoniais “seguras”. E a bondade da “opção homossexual”. E outras coisas do género.  É nisto – unicamente nisto – que consiste aquilo a que pomposamente chamam “educação sexual”.

Tudo aquilo que, ao longo da história, muitos tiranos tentaram, sem grande sucesso, realizar através da força – seleção de raça, super-homem, eliminação dos deficientes e dos velhos e dos inúteis, homem-ovelha facilmente conduzido – está agora a ser conseguido sem grandes ondas…

sábado, 31 de outubro de 2015

Ponto de Passagem


As mulheres têm coisas que irritam um homem até mais não poder. Possuem uma sensibilidade exagerada, que as leva a amuar por tudo e por nada; tendem a dizer as coisas apenas por meias palavras; são vingativas; fartam-se de gastar dinheiro em roupa; ligam imenso ao que as outras dizem; insistem constantemente em miudezas que mais ninguém consegue ver; se as deixarem, falam durante horas seguidas de coisas desinteressantes.
Os homens, por seu lado, levam qualquer mulher ao desespero. Comportam-se, irresponsavelmente, como crianças grandes; não reparam nas coisas mais óbvias; são desleixados no vestir, na limpeza, na arrumação; ligam mais ao trabalho e aos amigos do que ao que se passa em casa; preferem o futebol da televisão aos filhos e à mulher.
É, portanto, irracional que o homem e a mulher se juntem um ao outro e constituam uma família. É por isso que se torna necessário que a natureza – para os enganar – arranje uma temporada de cegueira mental, a que se chama paixão, e os atraia através de um instinto puramente animal.
Fora dessa temporada, as coisas estão no seu devido lugar: durante a infância, os rapazes preferem conviver com rapazes e as raparigas com raparigas; depois de passar a paixão, há aqueles conflitos que todos conhecemos e os arrependimentos tardios de quem se deixou cair na armadilha…
Mas não! As coisas não são bem assim.
Acontece que estes raciocínios assim tão redondinhos estão muitas vezes longe de serem verdadeiros, e não expressam com exatidão a realidade das coisas.
A natureza não nos enganou.
Uma das coisas mais maravilhosas que ela nos oferece é, sem dúvida, a forma harmoniosa de o homem e a mulher se completarem. Em geral, que seria de um homem sem uma mulher? E o que seria de uma mulher sem um homem? Não passariam de seres incompletos, qualquer coisa como uma faca que não tivesse lâmina, ou que não tivesse cabo.
A paixão é uma coisa maravilhosa, que leva uma mulher e um homem a unirem as suas vidas no objetivo comum de fundarem uma família e educarem os filhos. É, porém, necessário que a paixão, para ter sentido, se torne fecunda. Ela não deve nunca ser considerada um fim em si mesma, porque, pela sua própria natureza, não pode ser senão um ponto de passagem.
Mas hoje os casais não têm filhos, ou têm poucos filhos, ou não se empenham – pai e mãe – na educação dos filhos como grande objetivo da sua união.
E, então, já não há quase nada que os una. A paixão, ao inevitavelmente passar, deu lugar a… nada. A um aborrecimento vivido em comum. A um vazio no qual não têm ponta de sentido as qualidades femininas e as qualidades masculinas, por falta do objeto a que deviam aplicar-se.
Só têm então relevo os defeitos, ou as qualidades que, carecendo de objeto, se desvirtuaram e se tornaram maçadoras.

A natureza não errou. Nós é que saltámos para fora dos seus planos. Nada que, em grande parte dos casos, não tenha emenda.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O Mundo Esta Salvo


Recomeçaram as aulas. É tempo de retomar gestos familiares, em desuso durante umas semanas. Tempo de estar de novo à frente de um grupo desconhecido de alunos que esperam que lhes diga alguma coisa. Digo o meu nome e nunca sei muito bem o que devo dizer a seguir, mas as coisas acabam sempre por se comporem. Quando penso no que devo dizer, nunca digo aquilo que pensei previamente. E já me deixei disso.
Felizmente, daqui a poucos dias já nos conheceremos perfeitamente. Nunca precisamos de muito tempo para nos conhecermos bem… O que não for dito agora virá mais tarde e permanecerá. Saberão – não é preciso que lhes diga agora – que farei com que se cansem. Saberão que para chegar ao poema é preciso exercitar antes a sintaxe e outras coisas aborrecidas. Hão de queixar-se, mas eu terei vontade de rir quando vierem a descobrir, surpreendidos, que são capazes do poema. Só lá para o 3º Período… Antes disso, terão de escrever e apagar, escrever de novo, ouvir uma reprimenda, levar um recado para os pais…
Recomeçaram as aulas. Há exatamente um ano eu era um ano mais novo. Depois disso passaram 365 dias em que me encantei e me desencantei; em que me cansei; em que aprendi o que gostaria de não ter aprendido; em que descobri mais coisas que já não sou capaz de fazer. Envelheci. Mas os meus alunos, cujos rostos ainda não sei associar aos nomes, têm os mesmos 13 anos de há um ano atrás. É, de certa forma, estranho… O tempo passou por mim, mas não por aqueles que se encontram agora sentados à minha frente.
É sempre assim. E, sempre que é tempo de suceder isto, eu sei que o mundo está salvo. Enquanto houver jovens de 13 anos, o mundo está salvo.
Porque as minhas alunas adoram crianças – quase todas desejam ter, no futuro, profissões como educadora de infância ou médica pediatra. Porque gostam imenso de animais e gostariam muito de praticar equitação, se isso aqui fosse possível. Porque têm uma letra bonita e põem a língua de fora enquanto escrevem a composição que lhes mandei fazer.
Porque os meus alunos são saudavelmente tontos, como é próprio desta idade, mas têm neles um espaço para o sonho e para uma ambição que não fechou ainda as portas à nobreza. Porque têm um dinamismo enorme e não conseguem estar quietos durante muito tempo. Escrevem, no papel que lhes entreguei, que tencionam tirar um curso superior, mas ainda não sabem qual… e isso é delicioso.
Porque sabem dizer os seus defeitos e as suas qualidades com uma clareza notável, e ainda não aprenderam muito bem a ocultar, a torcer, a disfarçar.
Porque há ali vidas abertas a aprender, a ser mais, a ser melhor.
Recomeçaram as aulas. E em cada um dos alunos deste grupo – no meio do qual não me sinto perdido porque… afinal há muitos anos que os conheço – há um sorriso, uma promessa e um mistério.

E encho-me de esperança, porque é possível que não reparem muito em nós e no nosso mau exemplo. Porque pode acontecer que se cansem da podridão que lhes servimos na televisão e se dediquem a ter amigos, a ouvir música, a ler, a pintar, a escrever, a disparates sadios. Porque talvez muitos deles encontrem ao longo dos próximos anos uma orientação para a sua força, um norte para a sua ambição, um ombro para os seus desânimos: alguém sem medo de lhes dizer a verdade sobre a vida, o amor, o sofrimento e a morte.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O Zé


Em casa, o Dr. José Gonçalves é o Zé.
Ali, longe das câmaras da televisão, das reuniões do conselho de administração, dos jornalistas, do patrão, dos empregados, dos clientes, dos alunos, dos doentes, dos colegas… é somente o Zé.
Calça os chinelos, faz gestos prosaicos, resmunga, ri à vontade, permite-se caprichos, cantarola na ducha.
Conhecem-lhe as manias e os gostos; sabem como comportar-se quando está mal disposto, o que dizer para o convencer, que coisas o entusiasmam. É lá que realmente festeja o aniversário, é lá que lhe dão o prato preferido nos dias especiais. E sabem quais são os dias especiais. Em casa, o tempo tem assim cantinhos aconchegados como os tem o espaço. E há ritos velhinhos, cheios de sentido.
Em casa está tudo cheio de sentido.
Em casa pode errar. Em casa compreendem-no. Em casa ouvem aquilo que tem para dizer com verdadeira vontade de o escutar e de sentirem verdadeiramente as mesmas coisas que ele sente. Em casa dão tudo por um sorriso nos lábios dele.
Em casa têm uma paciência infinita. E sabem – pela forma como enfia a chave na fechadura, por uma certa expressão quase insensível do rosto – que aquele dia não correu lá muito bem.
Esperam um pouco – fingindo que não repararam em nada… – mas não tardam a contar-lhe coisas agradáveis, a pôr uma música que ele aprecia, a recordar episódios fantásticos que viveram juntos, a trazer umas fotografias antigas cheias de sabor, a lembrar-lhe que no Domingo há o Porto-Sporting… Até que ele dê a devida – a pequena – importância àquilo que o preocupava.
E, se o assunto for ainda mais sério, é certo que alguém, lá mais para o sossego da noite, se senta a sós junto dele e lhe diz baixinho: “conta lá…”.
O Zé termina sempre comovido os seus dias maus. Apetece-lhe agradecer e, às vezes, chorar.
Lá fora, o Dr. José Gonçalves é valorizado de acordo com aquilo que produz, de acordo com a sua maneira de funcionar. Pode descer ou subir na hierarquia da empresa, pode ser despedido ou promovido, ter um vencimento maior ou menor. Em casa, gostam do Zé assim como ele é. A família é o único lugar onde gostam do Zé por ele ser quem é: o filho, o marido, o pai, o irmão; aquela pessoa, com tudo o que faz parte dela, independentemente das suas qualidades e dos seus defeitos e daquilo que possa produzir.
Na família, aquilo que os une está num plano imensamente superior a tudo aquilo que os possa afastar. Muito acima das discórdias, das zangas, dos amuos, dos diferentes pontos de vista. Podem as ondas enfurecidas de um mar de inverno salpicar as estrelas? Alguém ligou aquelas vidas com um nó, e a vida de um é a vida dos outros. E o sorriso de um é a alegria dos outros. E a dor de um é a dor dos outros.
Mas o homem de hoje tem vindo a destruir – com uma frequência enorme e inexplicável – a sua família…

E, ao fazer isso, suicida-se de algum modo. Aniquila a sua personalidade, exila-se da pátria, abdica do seu reino. Transforma a sua pessoa numa coisa, pois passará a viver apenas nos ambientes em que é valorizado somente por aquilo que produz. Deixa de ser uma pessoa para passar a ser um funcionário…