Senso Crítico

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sábado, 3 de fevereiro de 2018

Muito Mais Simples




Numa altura em que a droga adquire – no nosso país e no mundo – proporções assombrosas, destruindo pessoas e famílias, vale a pena dizer que existe uma solução pequena e fácil, da qual nos temos andado a esquecer.
Quando se verifica o fracasso de todos os meios usados para impedir a proliferação da droga e se experimentam outros, mirabolantes – que muitas vezes não passam de absurdas concessões e de vis desistências -, vale a pena dizer que a solução não se encontra em sistemas de cooperação internacional, em vigilância policial, em complicados processos intelectuais ou em experimentar novos métodos.
O problema da droga – como quase todos os outros – é um problema de educação. Resolve-se nas famílias, resolvendo os problemas das famílias. Não é preciso ir mais longe.
Mas educar, no que diz respeito à droga, não consiste em explicar aos jovens os malefícios dela. Não consiste apenas em preveni-los contra um mal que, vindo de fora, os pode destruir.
É muito diferente disso. E um pouco mais trabalhoso.
Todas as pessoas procuram a felicidade e têm tendência a confundir felicidade com prazer. E todos tendem a conseguir a felicidade com o mínimo de esforço possível.
Acontece que a droga está no final do caminho do prazer fácil. Ainda não se descobriu coisa que dê mais prazer. Quando se vai pela vida correndo de prazer em prazer, sucede que se deseja sempre mais, porque aquilo que se tem nunca é bastante. São precisos prazeres cada vez maiores. E muitos chegam à droga através desse caminho.
Outros chegam lá pela ausência de um sentido para as coisas e para a vida.
Na família pode ensinar-se – principalmente através do exemplo dos pais – que existe uma felicidade que não reside nos prazeres do corpo, mas resulta de um comportamento reto. A felicidade nasce de se estar em paz com a consciência; brota do dever cumprido; vem-nos da vitória alcançada sobre nós mesmos, de termos realizado – apesar dos obstáculos interiores e exteriores – coisas boas.
É preciso que os filhos saboreiem muitas vezes todo o prazer que existe em terem terminado com perfeição uma tarefa que quiseram começar ou que lhes foi confiada. Devem ganhar gosto pelo trabalho bem terminado. Compreenderão que o prazer interior que sentem vale bem o esforço que aquilo lhes custou.
E quem diz o trabalho bem terminado diz muitas outras situações atrás das quais se esconde – como um tesouro – a felicidade: dizer a verdade mesmo quando custa muito, dedicar tempo e esforço a uma atividade que só aproveita a outros, tentar que nasça um sorriso em quem está triste, pedir perdão, fazer as pazes…
Tudo coisas “difíceis”…
Se, desde pequenos, se habituarem a procurar a felicidade nessas coisas, que são muitas vezes áridas, não irão procurá-la nos prazeres fáceis. Se, desde sempre, relacionarem felicidade e alegria com esforço – com coisas difíceis – desconfiarão quando os amigalhotes lhes acenarem com um prazer-que-não-custa-esforço.

E, entretanto, terão aprendido o sentido de todas as coisas.

domingo, 21 de janeiro de 2018

O Leque




Um homem consumido pela febre e pelas dores. Com uma angústia profundíssima porque verifica que a sua situação piora notavelmente a cada dia que passa.
Que faz esse homem para contrariar a febre que se vai apossando do seu ser, que o vai minando, que lhe vai destruindo as entranhas? Abana um leque junto da cabeça, nada mais. Combate o calor que lhe sobe ao rosto e que não passa da mais superficial das consequências do trabalho invisível e muito interior do terrível micróbio.
É um quadro patético. Teríamos vontade de rir, se não fosse, ao mesmo tempo, muitíssimo triste.
É, talvez, o quadro da nossa sociedade ocidental.
Há muito que aprendemos que a forma de resolver um problema consiste em descobrir-lhe a raiz e atuar nela. Eliminando o micróbio, acaba-se com a febre. O homem que abana o leque junto da cabeça parece não saber isto. Ou, então, não quer mesmo resolver o problema, por qualquer razão que não conseguimos entender.
Julgamos e condenamos os pedófilos. É, de certo modo, patético: um abanar de leque… Tem a sua utilidade, claro – alguma coisa temos de fazer para defender as nossas crianças -, mas não muito mais utilidade que a de abanar um leque junto de uma cabeça febril. Se não se for à raiz do problema, hão de vir a ser presas muitas mais pessoas e continuará a haver muitas vítimas pelo tempo fora…
Aquilo a que se chama pedofilia tem duas componentes fundamentais: a perversão da sexualidade e a utilização de outros seres humanos para satisfação própria. Era aí que devíamos travar a nossa batalha. Estes são dois males profundos da nossa sociedade, com outras manifestações, de resto, além daquela que agora nos assusta.
Temos admitido entre nós a pornografia, em diversas formas. Mas a pornografia desvirtua o sexo, e a pedofilia é uma das aberrações onde se pode chegar quando se desvirtua o sexo. Logo, será necessário eliminar a pornografia – e é apenas um exemplo – se realmente quisermos terminar com tudo isto. Não é razoável querermos uma coisa e não querermos as suas inevitáveis consequências. Não é possível, porque vivemos na realidade. Quem anda à chuva molha-se…
E a utilização dos outros, o dispor deles para os nossos interesses… é uma história antiga. Nisso já descemos ao mais fundo que era possível descer, quando permitimos que as nossas leis autorizassem o aborto.
Tínhamos eliminado a escravatura. Quase não havia pena de morte. Tínhamos construído hospitais e lares. Estávamos a elevar-nos. Mas, em poucas dezenas de anos, mergulhamos de tal modo que batemos com estrondo no fundo mais sombrio. Depois do aborto, nada será de espantar. Se continuarmos assim, um dia aceitaremos a pedofilia – dando-lhe outro nome, evidentemente, como quando chamamos ao maior dos crimes “interrupção voluntária da gravidez”.
Depois do aborto, por termos destruído o único alicerce em que se pode fundamentar a sociedade – o respeito incondicional e admirado pela vida humana – não é de espantar que todo o edifício social se desmorone.
Quem admite o aborto não tem sustento racional para condenar a pedofilia. Porque a pedofilia consiste em fazer o que se quer da criança que está fora do ventre da mãe, e o aborto consiste em fazer o que se quer da criança que está dentro do ventre da mãe. A essência do ato não muda só porque ele é realizado de uma forma menos visível. Permanece, como fundo, o uso da criança – da pessoa humana – como se fosse uma coisa.

A mesma mentalidade da escravatura…

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

O Mapa Do Tesouro



Não gostamos de que nos digam o que devemos fazer. Preferimos que os outros se metam apenas na sua vida  e que não nos deem conselhos. Vamos pelo nosso caminho, muito direitos e com o nariz no ar, respirando os ventos de uma liberdade que nos livrou de séculos de pó e bafio, que libertou de rótulos e grilhetas os nossos atos, tornando-os bons pelo simples fato de serem nossos.
A moral, que indicava regras de comportamento, passou de moda. Os amigos – por serem agora pessoas a quem não admitimos intromissões no sentido que damos aos nossos passos – passaram a ser apenas aqueles que circunstancialmente nos acompanham na paródia: paisagem fugidia de uma viagem alucinante.
Passamos, quase todos, a viver em cidades enormes, onde se tornou muito fácil proteger a nossa liberdade de olhares alheios. Ninguém nos conhece, ninguém tem tempo para se desviar por nossa causa, todos andam igualmente ocupados com o seu direito à liberdade.
A moral indicava quais os comportamentos que eram bons e quais os que se deviam evitar. E para que servia isso? Não era para nos encher de sombras e culpas: uma coisa assim não teria alcançado a importância que a moral alcançou, porque sempre apreciamos a alegria. Não era para nos tolher a liberdade, pois sempre a amamos; sempre por ela os homens morreram, como a História mostra fartamente.
Atos bons e maus… para quê? Para a felicidade. Acreditava-se – e muitos ainda hoje acreditam… – que a felicidade que é possível ter enquanto se passa por este planeta tem uma relação íntima com os comportamentos. Comportamentos corretos – de acordo com a nossa natureza humana – resultam em olhos limpos, em alegria na alma. Mas era preciso identificar o correto entre uma multidão de possibilidades, de apetites, de ideias, de sentimentos, de opiniões.
A moral era, assim, uma arte de viver, um mapa do tesouro, um caminho seguro por entre escolhos. Resultava de séculos e séculos de experiência. Sabia-se que proceder de certa forma conduzia a determinados resultados. Que atrás de certas portas de bela aparência se escondiam abismos tenebrosos de onde dificilmente se regressava. Havia a experiência de que os melhores caminhos eram aqueles que subiam quase sempre, muitas vezes por entre espinhos que arrancavam pedaços da carne.
Não gostamos de que nos digam o que devemos fazer… a não ser que estejamos perdidos, ou desorientados, e queiramos muito chegar a um certo lugar. Agradecemos que alguém tenha colocado na estrada uma placa que indique o caminho a seguir até onde queremos chegar. A moral servia para isso. As pessoas perguntavam: “Que devo fazer nesta situação?; Será bom fazer isto que agora me apetece?”. Perguntavam como quem pergunta o caminho para certo lugar. Queriam ser felizes.
E eram livres, sim. Homem livre é aquele que quer ir a um lugar e procura o caminho, e vai mesmo que encontre obstáculos e dificuldades.
A tristeza é um sinal evidente de que andamos perdidos. Não a tristeza passageira que, sem o podermos evitar,  nos enche os olhos de lágrimas, mas a outra: a desilusão crónica, o descontentamento permanente; a falta de sentido profundo para os êxitos e para os fracassos, para as dores e para o bem-estar, para as coisas pequenas e para as grandes.
Costumas ver – pela rua, em casa, no trabalho – muitas pessoas a transbordar felicidade?
Qualquer que tenha sido o trajeto percorrido, chegamos a um estado no qual se pretendeu desvincular a felicidade do comportamento. A felicidade foi associada, em vez disso, a ter coisas, a ter comodidade, a ter prazer. O que se conseguiu com isso foi esta multidão feita de pessoas tristes, apesar do altivo aspecto exterior. E uma vida superficialmente mais fácil, mas dolorosamente amarga no interior do coração: tantos suicídios, tanta droga, tanta necessidade de barulho e de agitação, tantas pessoas incapazes de estarem a sós consigo mesmas…

Ainda dizemos aos nossos filhos “Não faças isso”, mas já o dizemos sem convicção, visto não admitirmos que alguém nos diga isso a nós. Cada vez mais o dizemos apenas para evitar que façam coisas que nos incomodem, e não para que venham a ser felizes…

sábado, 1 de abril de 2017

O Amor Cristão Não é o Amor de Telenovelas


Na homilia desta quinta-feira, na Casa Santa Marta, o Papa Francisco sublinhou a concretude do amor cristão. Comentando o trecho da Primeira Carta de São João – "Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece conosco e seu amor é plenamente realizado em nós" (1 Jo 4, 12) –, ele explicou que "permanecer no amor" de Deus não é tanto um êxtase do coração, "uma coisa agradável de sentir":
"Veja que o amor do qual fala João não é o amor de telenovelas! Não, é outra coisa. O amor cristão tem sempre uma qualidade: a concretude. O amor cristão é concreto. O mesmo Jesus, quando fala de amor, fala de coisas concretas: alimentar os famintos, visitar os doentes e muitas coisas concretas. (...) E quando não há essa concretude, pode-se viver um cristianismo de ilusão, porque não se entendeu bem onde está o centro da mensagem de Jesus. Não chega esse amor a ser concreto: é um amor de ilusão, como esta ilusão que tiveram os discípulos quando, vendo Jesus, acreditaram que fosse um fantasma."
O Santo Padre disse que a confusão em identificar o verdadeiro amor é fruto de um coração insensível. "Se você tem o coração endurecido, não pode amar e pensa que o amor é imaginar coisas. Não, o amor é concreto". Ele também indicou dois critérios sobre os quais se funda esta concretude do amor cristão:
"Primeiro critério: amar com as obras, não com as palavras. As palavras são lançadas ao vento! Hoje elas são, amanhã não são. Segundo critério de concretude é: no amor é mais importante dar que receber. Aquele que ama dá, dá... Dá coisas, dá a vida, dá a si mesmo a Deus e ao outro. Mas quem não ama, que é egoísta, sempre procura receber, sempre quer ter coisas, ter vantagens."
A contraposição que o Papa faz do "amor cristão" e do "amor de telenovelas" mostra a grande deturpação que os meios de comunicação têm feito da verdadeira caridade. De fato, são muitos os mass media "que ridicularizam a santidade do matrimônio e a virgindade antes do casamento"01, degradando o amor a puro "sexo" e transformando-o em "mercadoria", "uma 'coisa' que se pode comprar e vender", o que, no fim das contas, mercantiliza "o próprio homem"02. Sem falar da tentativa claramente manifesta de passar à sociedade uma visão totalmente abstrata de família, o que equivale a nada menos que a sua destruição.
Ao contrário, o Papa Francisco recorda que "no amor é mais importante dar que receber". A medida do verdadeiro amor não são os sentimentos, mas a entrega fiel e constante de si ao bem amado. Por isso, diz-se que "o ágape exprime-se geralmente de um modo silencioso e duradouro, sem muito espetáculo"03: na doação de uma mãe que renuncia aos projetos de carreira para cuidar de seus filhos pequenos, no sacrifício de um esposo que batalha diariamente para sustentar sua casa e proteger o seu lar, no filho que ampara os seus pais na velhice etc. Este amor, embora escondido e marcado pela experiência do sofrimento, traz à alma a verdadeira alegria.
"Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos" (Jo 15, 13). Em um mundo onde as pessoas parecem valorizar mais o eros que o agape, os cristãos são chamados a seguir o exemplo de Jesus Cristo, que doou-se até o extremo da Cruz. Como diz São Francisco de Sales, "o Calvário é a montanha dos que amam".

sábado, 21 de janeiro de 2017

O Fracasso da Prostituição legal na Holanda



Por Julie Bindel* | Tradução: Equipe CNP — Há um conhecido quadro de comédia britânico que retrata dois policiais em Amsterdã, recostados em uma cadeira, se gabando de que não precisariam mais lidar com o crime de homicídio, porque o governo holandês já o tinha legalizado. A cena seria cômica, se não fosse trágica. Em 2000, o governo da Holanda decidiu facilitar a vida de cafetões, traficantes e apostadores, legalizando o já maciço e ostensivamente visível comércio de prostituição. A lógica era tão simples quanto enganadora: tornar as coisas mais seguras para todo mundo. Fazer disso um trabalho como qualquer outro. Uma vez que as mulheres estivessem livres do submundo, então, os bandidos, contrabandistas e traficantes de pessoas iriam cair fora.
Agora, doze anos depois, podemos ver os resultados desse experimento. Ao invés de proporcionar melhor proteção às mulheres, só fez aumentar o tráfico. Ao invés de confinar os bordéis a uma discreta (e evitável) parte da cidade, a indústria do sexo se espalhou por toda a Amsterdã — incluindo o meio da rua. Ao invés de receberem direitos no "ambiente de trabalho", as prostitutas descobriram que os cafetões são tão brutais como sempre foram. A união criada pelo governo para protegê-las tem sido recusada pela vasta maioria das prostitutas, que permanecem assustadas demais para reclamar.
Depois da legalização, os cafetões foram reclassificados como empresários e homens de negócios. Os abusos sofridos pelas mulheres são chamados agora de "acidentes de trabalho", como uma pedra caída no dedo de um construtor. O turismo sexual cresceu mais rápido em Amsterdã do que qualquer outro tipo de turismo: como a cidade se tornou o bordel da Europa, mulheres têm sido importadas da África, do Leste da Europa e da Ásia para satisfazer a demanda. Em outras palavras, os cafetões não só não foram embora, como ganharam legitimidade — a violência não só prevalece, como se tornou parte do trabalho, e o tráfico aumentou. O apoio para que as mulheres deixassem a prostituição ficou praticamente inexistente. A obscuridade inerente a esse trabalho não foi amenizada pela bênção da lei.
O governo holandês esperava exercer o papel de "cafetão honrado", tomando parte do rendimento de prostituição através de impostos. Mas só 5% das mulheres se registraram para a taxa, porque ninguém quer ser conhecida como prostituta — não importa o quão legal isso seja. A ilegalidade simplesmente tomou uma nova forma, com um aumento no tráfico, nos bordéis clandestinos e no lenocínio; com a fiscalização completamente fora de cena, ficou ainda mais fácil quebrar as leis que restaram. Prostituir mulheres de países que não pertencem à União Europeia, desesperadas por uma vida nova, continua ilegal, mas nunca foi tão fácil.
A legalização impôs casas de prostituição em áreas de toda a Holanda, queiram elas ou não. Mesmo se um município ou cidade se opõe ao estabelecimento de um bordel, ele deve permitir pelo menos um — não fazê-lo é ir contra o direito federal básico ao trabalho. Para muitos holandeses, a legalidade e a decência foram irreconciliavelmente divorciadas. Tudo foi um fracasso social, jurídico e econômico — e a loucura, finalmente, está chegando ao fim.
boom dos bordéis acabou. Um terço dos prostíbulos de Amsterdã foi fechado por envolvimento com o crime organizado e com o tráfico de drogas e devido ao aumento no tráfico de mulheres. A polícia agora reconhece que o famoso Distrito da Luz Vermelha — a zona de Amsterdã em que se concentram as casas de prostituição — se transformou em um centro global de tráfico humano e lavagem de dinheiro. As ruas estão infiltradas de gangues famintas à procura de jovens vulneráveis e vendendo-as como virgens que farão o que quer que sejam mandadas a fazer. Muitos dos envolvidos no comércio regular de turismo de Amsterdã — com os seus museus e canais — temem que os seus visitantes desapareçam juntamente com a reputação da cidade.
Eu estive lá recentemente com Roger Matthews, professor de Criminologia na Universidade de Kent e especialista renomado em tráfico sexual. Os políticos com quem ele conversou confessam que a legislação conseguiu piorar uma situação que já estava desagradável. Começa, então, um trabalho inútil de reparação, com mulheres que alugam vitrines em breve sendo obrigadas a registrar-se como prostitutas — uma medida tão inefetiva quanto a obrigação que elas têm de pagar impostos. Quando a falsa união governamental supostamente representando as mulheres fez um recrutamento maciço de associados após a legalização, apenas cem se filiaram, das quais a maioria eram strippers e dançarinas.
Ao invés de acabar com a corrupção do Distrito da Luz Vermelha, isso tornou a área mais decadente do que nunca — repleta de turistas sexuais bêbados agindo como olhadores de vitrine, apontando e rindo das mulheres que eles vêem. As mulheres da região atravessam as ruas com as cabeças baixas, tentando não ver as outras mulheres exibidas como pedaços de carne em um açougue. É possível ver homens entrando nos bordéis, tentando abaixar o preço do serviço, e outros saindo, enquanto fecham o zíper de seus jeans. Muitas das mulheres parecem muito jovens, todas entediadas, a maioria seminuas, sentadas em banquinhos com os celulares na mão.
Em nenhum outro lugar do mundo a prostituição de rua é legalizada, porque as pessoas não querem isso à vista. Onde há comércio sexual de rua, mulheres são abordadas no caminho de casa por apostadores e, frequentemente, camisinhas, parafernália de drogas e cafetões são visíveis. Mas a Holanda decidiu em 1996 que a prostituição de rua era uma forma decente de ganhar dinheiro e criou várias "zonas de tolerância" para homens alugarem com segurança a entrada do corpo feminino que desejarem por alguns poucos minutos.
Um dia depois de abrirem a zona de Amsterdã, mais de uma centena de residentes das redondezas tomaram as ruas em protesto. Levou seis anos para o prefeito admitir em público que o experimento tinha sido um desastre, um ímã para mulheres traficadas, traficantes de drogas e meninas menores de idade. Zonas em Roterdã, Haia e Heerlen foram fechadas em circunstâncias similares. A direção das mudanças é clara: a legalização será revogada. Ela não significou emancipação. Ao contrário, resultou no tratamento abusivo, desumano e degradante das mulheres, porque declara a compra e venda de carne humana aceitáveis aos olhos da lei. Enquanto o governo holandês é reformado e passa de cafetão a protetor, terá tempo para refletir no dano causado às mulheres envolvidas nesse calamitoso experimento social.