Senso Crítico

Senso Crítico
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quarta-feira, 13 de junho de 2018

Queimar os Navios



Contam que Pizarro, o conquistador espanhol, pouco depois de desembarcar na América do Sul com os seus homens, mandou queimar os navios que os tinham levado até lá.
Estranha atitude, que poucos se teriam atrevido a tomar, pois havia um oceano a atravessar para regressarem a casa. Mas a verdade é que também não foram muitos aqueles que deixaram o seu nome na História por terem realizado feitos notáveis…
É certo que podemos criticar as conquistas de Pizarro e a forma como as realizou, mas este gesto concreto é, sem dúvida, valioso.
Conhecia a extrema dificuldade da tarefa que perseguiam. Sabia que viriam perigos incontáveis, terrores, mortes, doenças. Temia o desconhecido, que se afigurava pavoroso. Conhecia os seus homens e conhecia-se a si mesmo. Receava que – depois de uma derrota, perante o desânimo provocado por algum obstáculo aparentemente intransponível – pensassem apenas na forma mais rápida de chegar de novo à costa, entrar nos barcos e regressar a casa.
Mas não admitia outra coisa senão cumprir o objetivo. Cortou a retirada. E os navios arderam. O único caminho, a partir de então, era em frente e até ao fim. E conseguiu.
Conhecemos, decerto, casamentos que correram mal e casamentos que correram bem.
Mas não é exatamente assim. Todos esses casamentos correram mal, no sentido de que em todos houve, com toda a certeza, dificuldades sérias, dessas que agora facilmente consideramos intransponíveis.
O que existiu foi uma diferença de atitudes. Houve aqueles que tinham deixado uma porta aberta, pelo menos dentro de si, e por ela se escaparam quando tudo estava a ficar “insuportável”. E houve, por outro lado, os que – por não admitirem outra solução – se empenharam em resolver, dentro do único caminho que podiam conceber, os problemas existentes. E a verdade é que os resolveram.
Todas as coisas grandes e duradouras que até hoje se fizeram envolveram um acto semelhante a este do conquistador espanhol. Envolveram a decisão de fechar as portas à possibilidade de bater em retirada. Resultaram de decisões que se mantiveram fortes como o aço ao longo do tempo, perante a dor e o sofrimento e as dificuldades mais sérias.
Hoje quase não somos capazes de nos abandonarmos ao amor. Não somos capazes de um amor que seja inquebrável. Dizemos “quero-te para sempre” – e somos sinceros – mas não somos capazes de manter o amor e a palavra que dissemos. Tornamo-nos moles. Somos caricaturas de homens e de mulheres, porque temos pouco de vontade forte, de liberdade verdadeira.
Há, porém, uma coisa que ainda podemos fazer para salvar o mundo, para resgatar um pouco daquilo que destruímos. Podemos, pelo menos, tentar educar as nossas crianças de forma a que elas venham a ser pessoas de palavra, gente honrada, com uma lealdade a toda a prova, com forte determinação. Tentar educá-los… tanto quanto é possível que alguém que não dá exemplo eduque.
Podemos fazer isso. Se eles vierem a ser capazes de constituírem lares sólidos, famílias consistentes, a nossa vida não terá sido, apesar de tudo, inútil.

Se calhar, o que temos feito até agora foi procurar justificações para não termos ido até ao fim do caminho. Tornamos o divórcio numa coisa natural, para não nos sentirmos culpados. Seria belo que fôssemos agora capazes de dizer: “errei, mas olha para mim e segue outro caminho”.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Menina Encantada




“Menina Encantada” é o nome de um navio que costuma estar amarrado no porto de Sesimbra, ao lado de muitos outros. Uma vez, ao reparar nele num dos meus passeios, lembrei-me da Susana.
A Susana é minha aluna e é também uma menina encantada.
Não vou fazer-lhe aqui um elogio; vou, sim, elogiar os pais dela. A Susana tem uma idade na qual ainda não se conquistaram virtudes. Nessa fase da vida ainda não temos virtudes próprias: refletimos as virtudes de quem nos educou.
Uma vez disse-lhe que tinha uma grande admiração pelos pais, o que a deixou espantada, visto que nunca tive o gosto de conhecer pessoalmente os senhores. Podia ter respondido ao seu espanto dizendo que sim, que conhecia muito bem os pais porque a conhecia a ela. Mas preferi não o fazer. Um dia ela compreenderá por si mesma a verdadeira razão. Levei o caso para a brincadeira. Disse-lhe: “Eles aturam-te pacientemente há muitos anos, e eu, só de te aturar durante três horas por semana, já tenho vontade de te atirar pela janela…”.
A Susana é uma menina encantada, com um encanto muito mais do que superficial. Tem assim uma espécie de perfume interior que se sente e não se sabe explicar bem. É agradável estar ao lado dela. Os colegas procuram-na, sentam-se à sua beira, brincam e conversam com ela. A escola não é bem a mesma coisa quando ela não está. Não tem graça pensar num programa se ela não puder estar presente.
A Susana tem uma aparência que não dá nas vistas; não é rica; veste-se modestamente; não fala alto. Escuta o que os outros dizem. Não se pinta, como sucede com algumas das companheiras. Mas está sempre contente. Quando tem o que desejou e quando não o tem. Porque também lhe passam pela cabeça todas as coisas que passam pelas cabeças das colegas. Uma vez ouvi-a dizer que não usava não sei que gênero de brincos, destes modernos, porque os pais não a deixavam usá-los. Não era uma queixa; foi uma coisa que veio à conversa, em grupo, durante um intervalo, com a maior das naturalidades. .
A Susana fez-me pensar.
Todos gostam de estar com ela porque está sempre bem-disposta. E está sempre bem-disposta porque se habituou a aceitar e a obedecer. Quando nos habituamos a não esperar muito da vida, qualquer coisinha nos deixa contentíssimos.
Ora isto é o contrário do que se passa com tantas e tantos, que se tornaram constantemente insatisfeitos e rabugentos por terem sido acostumados a ter aquilo que desejavam: aquilo que viam nas montras, os pratos preferidos, os objetos e brinquedos que viam os outros usar na escola, certas marcas de roupa. Quando alguém vai por esse caminho, deseja sempre mais, sempre diferente, sempre melhor, sempre mais caro, sempre novo. E passa de uns campos para outros, até chegar ao convencimento de que tem direito a que a vida satisfaça todos os seus desejos.
Às vezes não reparamos bem no alcance de certas coisas que fazemos enquanto educadores. A verdade é que quando damos a uma criança todas as coisas que ela deseja lhe damos também o aborrecimento. E a incompatibilidade futura com as arestas da vida.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Muito Mais Simples




Numa altura em que a droga adquire – no nosso país e no mundo – proporções assombrosas, destruindo pessoas e famílias, vale a pena dizer que existe uma solução pequena e fácil, da qual nos temos andado a esquecer.
Quando se verifica o fracasso de todos os meios usados para impedir a proliferação da droga e se experimentam outros, mirabolantes – que muitas vezes não passam de absurdas concessões e de vis desistências -, vale a pena dizer que a solução não se encontra em sistemas de cooperação internacional, em vigilância policial, em complicados processos intelectuais ou em experimentar novos métodos.
O problema da droga – como quase todos os outros – é um problema de educação. Resolve-se nas famílias, resolvendo os problemas das famílias. Não é preciso ir mais longe.
Mas educar, no que diz respeito à droga, não consiste em explicar aos jovens os malefícios dela. Não consiste apenas em preveni-los contra um mal que, vindo de fora, os pode destruir.
É muito diferente disso. E um pouco mais trabalhoso.
Todas as pessoas procuram a felicidade e têm tendência a confundir felicidade com prazer. E todos tendem a conseguir a felicidade com o mínimo de esforço possível.
Acontece que a droga está no final do caminho do prazer fácil. Ainda não se descobriu coisa que dê mais prazer. Quando se vai pela vida correndo de prazer em prazer, sucede que se deseja sempre mais, porque aquilo que se tem nunca é bastante. São precisos prazeres cada vez maiores. E muitos chegam à droga através desse caminho.
Outros chegam lá pela ausência de um sentido para as coisas e para a vida.
Na família pode ensinar-se – principalmente através do exemplo dos pais – que existe uma felicidade que não reside nos prazeres do corpo, mas resulta de um comportamento reto. A felicidade nasce de se estar em paz com a consciência; brota do dever cumprido; vem-nos da vitória alcançada sobre nós mesmos, de termos realizado – apesar dos obstáculos interiores e exteriores – coisas boas.
É preciso que os filhos saboreiem muitas vezes todo o prazer que existe em terem terminado com perfeição uma tarefa que quiseram começar ou que lhes foi confiada. Devem ganhar gosto pelo trabalho bem terminado. Compreenderão que o prazer interior que sentem vale bem o esforço que aquilo lhes custou.
E quem diz o trabalho bem terminado diz muitas outras situações atrás das quais se esconde – como um tesouro – a felicidade: dizer a verdade mesmo quando custa muito, dedicar tempo e esforço a uma atividade que só aproveita a outros, tentar que nasça um sorriso em quem está triste, pedir perdão, fazer as pazes…
Tudo coisas “difíceis”…
Se, desde pequenos, se habituarem a procurar a felicidade nessas coisas, que são muitas vezes áridas, não irão procurá-la nos prazeres fáceis. Se, desde sempre, relacionarem felicidade e alegria com esforço – com coisas difíceis – desconfiarão quando os amigalhotes lhes acenarem com um prazer-que-não-custa-esforço.

E, entretanto, terão aprendido o sentido de todas as coisas.

domingo, 21 de janeiro de 2018

O Leque




Um homem consumido pela febre e pelas dores. Com uma angústia profundíssima porque verifica que a sua situação piora notavelmente a cada dia que passa.
Que faz esse homem para contrariar a febre que se vai apossando do seu ser, que o vai minando, que lhe vai destruindo as entranhas? Abana um leque junto da cabeça, nada mais. Combate o calor que lhe sobe ao rosto e que não passa da mais superficial das consequências do trabalho invisível e muito interior do terrível micróbio.
É um quadro patético. Teríamos vontade de rir, se não fosse, ao mesmo tempo, muitíssimo triste.
É, talvez, o quadro da nossa sociedade ocidental.
Há muito que aprendemos que a forma de resolver um problema consiste em descobrir-lhe a raiz e atuar nela. Eliminando o micróbio, acaba-se com a febre. O homem que abana o leque junto da cabeça parece não saber isto. Ou, então, não quer mesmo resolver o problema, por qualquer razão que não conseguimos entender.
Julgamos e condenamos os pedófilos. É, de certo modo, patético: um abanar de leque… Tem a sua utilidade, claro – alguma coisa temos de fazer para defender as nossas crianças -, mas não muito mais utilidade que a de abanar um leque junto de uma cabeça febril. Se não se for à raiz do problema, hão de vir a ser presas muitas mais pessoas e continuará a haver muitas vítimas pelo tempo fora…
Aquilo a que se chama pedofilia tem duas componentes fundamentais: a perversão da sexualidade e a utilização de outros seres humanos para satisfação própria. Era aí que devíamos travar a nossa batalha. Estes são dois males profundos da nossa sociedade, com outras manifestações, de resto, além daquela que agora nos assusta.
Temos admitido entre nós a pornografia, em diversas formas. Mas a pornografia desvirtua o sexo, e a pedofilia é uma das aberrações onde se pode chegar quando se desvirtua o sexo. Logo, será necessário eliminar a pornografia – e é apenas um exemplo – se realmente quisermos terminar com tudo isto. Não é razoável querermos uma coisa e não querermos as suas inevitáveis consequências. Não é possível, porque vivemos na realidade. Quem anda à chuva molha-se…
E a utilização dos outros, o dispor deles para os nossos interesses… é uma história antiga. Nisso já descemos ao mais fundo que era possível descer, quando permitimos que as nossas leis autorizassem o aborto.
Tínhamos eliminado a escravatura. Quase não havia pena de morte. Tínhamos construído hospitais e lares. Estávamos a elevar-nos. Mas, em poucas dezenas de anos, mergulhamos de tal modo que batemos com estrondo no fundo mais sombrio. Depois do aborto, nada será de espantar. Se continuarmos assim, um dia aceitaremos a pedofilia – dando-lhe outro nome, evidentemente, como quando chamamos ao maior dos crimes “interrupção voluntária da gravidez”.
Depois do aborto, por termos destruído o único alicerce em que se pode fundamentar a sociedade – o respeito incondicional e admirado pela vida humana – não é de espantar que todo o edifício social se desmorone.
Quem admite o aborto não tem sustento racional para condenar a pedofilia. Porque a pedofilia consiste em fazer o que se quer da criança que está fora do ventre da mãe, e o aborto consiste em fazer o que se quer da criança que está dentro do ventre da mãe. A essência do ato não muda só porque ele é realizado de uma forma menos visível. Permanece, como fundo, o uso da criança – da pessoa humana – como se fosse uma coisa.

A mesma mentalidade da escravatura…

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

O Mapa Do Tesouro



Não gostamos de que nos digam o que devemos fazer. Preferimos que os outros se metam apenas na sua vida  e que não nos deem conselhos. Vamos pelo nosso caminho, muito direitos e com o nariz no ar, respirando os ventos de uma liberdade que nos livrou de séculos de pó e bafio, que libertou de rótulos e grilhetas os nossos atos, tornando-os bons pelo simples fato de serem nossos.
A moral, que indicava regras de comportamento, passou de moda. Os amigos – por serem agora pessoas a quem não admitimos intromissões no sentido que damos aos nossos passos – passaram a ser apenas aqueles que circunstancialmente nos acompanham na paródia: paisagem fugidia de uma viagem alucinante.
Passamos, quase todos, a viver em cidades enormes, onde se tornou muito fácil proteger a nossa liberdade de olhares alheios. Ninguém nos conhece, ninguém tem tempo para se desviar por nossa causa, todos andam igualmente ocupados com o seu direito à liberdade.
A moral indicava quais os comportamentos que eram bons e quais os que se deviam evitar. E para que servia isso? Não era para nos encher de sombras e culpas: uma coisa assim não teria alcançado a importância que a moral alcançou, porque sempre apreciamos a alegria. Não era para nos tolher a liberdade, pois sempre a amamos; sempre por ela os homens morreram, como a História mostra fartamente.
Atos bons e maus… para quê? Para a felicidade. Acreditava-se – e muitos ainda hoje acreditam… – que a felicidade que é possível ter enquanto se passa por este planeta tem uma relação íntima com os comportamentos. Comportamentos corretos – de acordo com a nossa natureza humana – resultam em olhos limpos, em alegria na alma. Mas era preciso identificar o correto entre uma multidão de possibilidades, de apetites, de ideias, de sentimentos, de opiniões.
A moral era, assim, uma arte de viver, um mapa do tesouro, um caminho seguro por entre escolhos. Resultava de séculos e séculos de experiência. Sabia-se que proceder de certa forma conduzia a determinados resultados. Que atrás de certas portas de bela aparência se escondiam abismos tenebrosos de onde dificilmente se regressava. Havia a experiência de que os melhores caminhos eram aqueles que subiam quase sempre, muitas vezes por entre espinhos que arrancavam pedaços da carne.
Não gostamos de que nos digam o que devemos fazer… a não ser que estejamos perdidos, ou desorientados, e queiramos muito chegar a um certo lugar. Agradecemos que alguém tenha colocado na estrada uma placa que indique o caminho a seguir até onde queremos chegar. A moral servia para isso. As pessoas perguntavam: “Que devo fazer nesta situação?; Será bom fazer isto que agora me apetece?”. Perguntavam como quem pergunta o caminho para certo lugar. Queriam ser felizes.
E eram livres, sim. Homem livre é aquele que quer ir a um lugar e procura o caminho, e vai mesmo que encontre obstáculos e dificuldades.
A tristeza é um sinal evidente de que andamos perdidos. Não a tristeza passageira que, sem o podermos evitar,  nos enche os olhos de lágrimas, mas a outra: a desilusão crónica, o descontentamento permanente; a falta de sentido profundo para os êxitos e para os fracassos, para as dores e para o bem-estar, para as coisas pequenas e para as grandes.
Costumas ver – pela rua, em casa, no trabalho – muitas pessoas a transbordar felicidade?
Qualquer que tenha sido o trajeto percorrido, chegamos a um estado no qual se pretendeu desvincular a felicidade do comportamento. A felicidade foi associada, em vez disso, a ter coisas, a ter comodidade, a ter prazer. O que se conseguiu com isso foi esta multidão feita de pessoas tristes, apesar do altivo aspecto exterior. E uma vida superficialmente mais fácil, mas dolorosamente amarga no interior do coração: tantos suicídios, tanta droga, tanta necessidade de barulho e de agitação, tantas pessoas incapazes de estarem a sós consigo mesmas…

Ainda dizemos aos nossos filhos “Não faças isso”, mas já o dizemos sem convicção, visto não admitirmos que alguém nos diga isso a nós. Cada vez mais o dizemos apenas para evitar que façam coisas que nos incomodem, e não para que venham a ser felizes…

sábado, 17 de dezembro de 2016

É Tão Bom Ser Pequenino


Recordo o cheiro dos lençóis lavados, a guerra para lavar os dentes, histórias contadas antes de adormecer. O desejo de chegar a casa, o aconchego e, depois, outra vez a vontade de sair.
Corria para a minha mãe quando caía e me magoava. Não para o meu pai, porque seria preciso dar muitas explicações e ouvir de novo o racional “Eu já te tinha avisado…”.
Um prato especial nos dias de festa. Birras. É preciso vestir aquela roupa nova. É a tua vez de lavar a louça.
Não sei muito bem a partir de que idade é que os irmãos deixam de ser irritantes…
Depois do jantar fazíamos jogos e entretínhamo-nos uns com os outros. Por vezes, quando era verão, saíamos a passear e apanhávamos pirilampos.
A chuva lá fora, o calor dentro de casa. Um livro. Um amigo que vem lanchar. Um ralhete porque desta vez passamos dos limites e as calças vêm cheias de lama. Já te disse tantas vezes que não se deve deixar aí a roupa suja…
Acordar com um beijo. Adormecer com uma oração.
Natal. Os primos. Visitas a casa dos avós. Brincadeiras. Às vezes notar, sem notar, uma expressão semelhante a tristeza ou cansaço no rosto do pai ou no rosto da mãe. Depois, brincadeira de novo. Música, flores, sorrisos. É tão bom ser pequenino…
Coisas pequenas. Diárias. Vulgares. Mas enormes, únicas, cheias de magia.
Durante muito tempo estive convencido de que era a infância que acendia nas pequenas coisas de todos os dias essa música e esse encanto que agora recordo. Que era por ser pequeno na altura que todas essas coisas são agora especiais. Mas há tantas pessoas que foram também pequenas e nunca poderão ter recordações destas… E não porque não tivessem tido pais, ou porque estes os tivessem maltratado ou porque tivessem sido demasiado pobres.
Geralmente não é muito difícil casar, ter filhos, uma casa para viver. Mas depois de se conseguir isso podemos chegar à conclusão de que é muitíssimo difícil construir uma família. É talvez como ter já os tijolos e, no entanto, sentirmo-nos incapazes de encontrar o cimento que os una, lhes dê forma, consistência e identidade.
É fundamental ter uma infância feliz… E começámos então a dar aos filhos coisas excelentes e atividades fantásticas e experiências divertidas. E enchemos de trabalho os dias, para lhes podermos dar tudo isso. Saímos, portanto, de casa. E a casa esvaziou-se.
E deixámos de viver com os filhos. As coisas fantásticas que lhes demos acabaram por ocupar quase todo o tempo em que deveríamos ter estado com eles.
É muito fácil errar o caminho.
Ao crescer, descobri que para se ter os lençóis lavados e passados a ferro é preciso frequentemente deitar-se mais tarde e dormir menos.
Aprendi que é preciso ter paciência para fazer uma criança ganhar o hábito de lavar os dentes ou deixar a roupa suja no local correto. E que a paciência dói.
Reparei em que as pessoas mais velhas gostam de sossego depois do jantar, porque se cansam facilmente. E que, por isso, tem um alto preço fazer nessa altura jogos com crianças ou correr atrás de pirilampos.
Vim assim a saber que o cimento da família é aquilo que se faz pelos outros, deixando de fazer aquilo de que se gosta, para os ver felizes, para os construir, para os ajudar a chegar onde devem chegar. Aquelas pequenas coisas da minha infância foram grandes, afinal, porque eram feitas de um amor sacrificado e escondido.

Esse amor toca naquilo que é pequeno e engrandece-o. Desenha flores no pó do quotidiano. Só ele permanece.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

A Orquestra


Gosto de ir ver a orquestra.
Vou ouvi-la, também, mas gosto mesmo é de a ver: enche-se-me a alma de uma outra forma; junto à beleza da música o encanto de ver o homem ser como deve ser.
Dominar um instrumento musical leva muito tempo. É preciso tornar os gestos sólidos e finos. Exige o aperfeiçoamento constante de qualquer coisa que nasceu connosco, deve desenvolver-se dentro de nós e brotar mais tarde, com naturalidade, como a água da fonte.
Assim solta a flor as suas pétalas: após um longo processo.
Gosto de ir ver a orquestra. Um homem cresce longamente por dentro de si, num tempo grande de isolamento, em esforço e privação, com o sol do outro lado da janela, e depois parece que isso não lhe serve para benefício próprio. Depois apaga-se, mergulha numa zona mais ou menos escura, ao lado de outros como ele. Depois não se torna conhecido, não gritam o seu nome, não se torna rico.
Passa despercebido.
O belo som que produz – que longamente aprendeu a produzir – é incapaz de se encher de sentido sozinho. Alguns instrumentos podem ser ouvidos, com agrado, sem acompanhamento; outros, nem por isso… Mas cada um deles só se torna verdadeiramente grande quando se apaga e se faz esquecer, passando oculto, como simples gota de água, no mar maravilhoso que é a sinfonia.
E há uma obediência maravilhosa. Um senhor de aspecto frágil, já com certa idade e ar de sábio, tem nas mãos uma batuta e dirige com gestos ligeiros todos aqueles sons e todas aquelas vontades individuais. O violinista não se liberta quando lhe apetece. E não pode brilhar: deve conter-se, prendendo-se aos seus tempos próprios e ao papel concreto que lhe corresponde.
Há muitos olhos atentos à mão que segura a batuta. Não se sentem constrangidos nem se revoltam. Procuram é a fidelidade ao seu pequeno papel, a melhor forma de passarem despercebidos: a perfeição pequena que é necessária à grande perfeição da sinfonia.
Obedecem porque querem. E eu gosto de ir ver a orquestra também porque compreendo de novo que é possível obedecer com liberdade, e que não é humano fazê-lo à maneira dos escravos: com raiva e de má vontade.
Há qualquer coisa extremamente desagradável na escravatura. Não só naquela que era imposta e existiu abundantemente em tempos antigos, mas nessa outra que muitas pessoas praticam quando são contrariadas – porque a vida não os pode satisfazer sempre – no caminho errado da sua pequena ambição individual.
O homem livre escolhe obedecer, para que possa existir a sinfonia. É nela que ele se torna grande. E ama o seu papel, indiferente ao brilho, maior ou menor, que lhe corresponda.
Não há nada maior para fazer do que a sinfonia. O homem deseja ser grande e tem os seus sonhos. Mas se aquilo que sonha for verdadeiramente grande, ele não poderá realizá-lo sozinho. Um homem por si só não é capaz de construir uma ponte, ou uma estrada, ou uma universidade. Ou a paz, ou uma família. Não educará os filhos. Não será sequer capaz de se construir a si próprio.

É perdendo-se na sinfonia que ele se encontra a si mesmo do tamanho que sonhou.

O Último Patamar


Todos nós já reparamos, com toda a certeza, nos ataques – violentos e constantes – que são feitos contra a instituição familiar nos tempos que correm.
A família apanha pancada a torto e a direito. Apeteceria ter pena dela, se fosse uma pessoa.
Basta passar os olhos num jornal ou numa revista, ligar a televisão, reparar nas propostas de lei que, insistentemente, sobem e voltam a subir – mesmo depois de anteriormente derrotadas – aos parlamentos dos vários países.
Tudo é útil.
Tudo aquilo que, de uma forma ou de outra, possa servir para corromper a família e contribuir  para a eliminar da face da terra é incrementado, com meios poderosíssimos, em nome de qualquer coisa mal explicada que pretendem vestir de modernidade.
E apresentam-nos, em alternativa à família, como sendo as últimas conquistas do progresso humano, coisas que não são senão roupagens que pretendem tornar apresentáveis as mais antigas podridões humanas.
Como se a família fosse algo que pertencesse a uma época da história que estamos prestes a ultrapassar. Como se ela se pudesse abandonar, para dar lugar a algo mais atual, da mesma forma que se abandonaram as máquinas de escrever à medida que se foram generalizando os computadores.
Vamos assistindo a esses ataques…
É a intenção clara de impor na sociedade o aborto. A coabitação. O “casamento” de homossexuais e a possibilidade de adoptarem crianças. A atividade sexual desregrada, arrancada ao âmbito que lhe é próprio.
São as leis que favorecem o divórcio, e a ausência de leis que defendam e promovam as famílias com filhos.
É a criação de um ambiente de comodidade material e de egoísmo – “Segurança!… Segurança!”… – no qual os filhos não têm lugar, porque nada se opõe tanto ao egoísmo e à comodidade como os filhos.
É a tentativa de fazer passar – como sendo um facto moderno e racional – a ideia de um “planeamento familiar” que, no fim de contas (não é tão fácil reparar na contradição?), consiste em aprender as técnicas de não construir uma família.
E a outra ideia, a de que as crianças – não passam, para eles, de brinquedos vivos… – existem para os pais, e não os pais para as crianças (é talvez por isso que se avança tanto na investigação em embriões, de forma a que, qualquer dia, se possa escolher o sexo, as características, os pormenores do aspecto físico dos filhos… assim como quem vai à loja escolher uma boneca).
São, ainda, muitas outras coisas. Tantas, que uma família normal, com muitos filhos, já é olhada como um bicho estranho quando  passa na rua (sucede como quando alguém passa conduzindo um daqueles carros de museu que funcionam a manivela…).
No entanto, apesar de todos os ataques, e dos rios de dinheiro – não podemos ser ingénuos – que organizações poderosas gastam neles, a família não deixará de existir como aquilo que é: um nó de laços indestrutíveis, fundamentado na união – assumida em forma de compromisso livre – de um homem com uma mulher para sempre.
E todas essas campanhas são uma batalha antecipadamente perdida. E todo esse dinheiro é inutilmente gasto.
É que a família pertence à natureza humana, e não está na mão de ninguém mudar isso. Não é um estágio da evolução da humanidade, uma fase que depois se ultrapassa para se chegar a um patamar superior.
A seguir à família não há mais nenhum patamar: só o abismo.
Se não houvesse a família, não haveria homens, mas sim monstros (às vezes encontramos por aí alguns que não chegaram bem a ter uma família, nem nada parecido, e aquilo que neles vemos faz-nos pensar precisamente nisto).
Não acontecerá, evidentemente, aquilo que vou imaginar a seguir.
Mas se alguém muito poderoso e sábio, num dia muito futuro em que isto estivesse tudo perdido – num dia em que as orientações que agora se tenta impor tivessem vingado e conduzido ao desconcerto e ao isolamento gerais – se esse alguém se pusesse a magicar numa forma de organizar a sociedade de maneira a reconstrui-la; se quisesse arquitetar um sistema de formar novos homens que possuíssem firme consistência; se procurasse uma maneira de os homens estarem ligados uns aos outros por laços inquebráveis que os acompanhassem ao longo de toda a existência; se pretendesse que os homens nunca mais estivessem sozinhos; se desejasse inventar um caminho que de novo conduzisse à felicidade…
Então esse alguém, se fosse capaz, começaria por formar pequenas células, sãs e inquebráveis, que, depois de se juntarem a outras, viessem a constituir o tecido da sociedade dos homens.
Esse alguém, se fosse capaz, inventaria… a família!

Nós, que ainda a temos, devemos prezá-la como se preza um tesouro.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O Rebanho



É certo que nós, os homens, nos temos animalizado.
Tornaram-se mais raros os comportamentos humanos: quero dizer comportamentos ditados pela inteligência e pela vontade; pela parte espiritual – a mais elevada – do nosso ser.
Procuramos encher a barriga, buscamos o divertimento, a comodidade, o prazer, aquilo que é fácil. Não nos interessam os sábios, os filósofos, os poetas, os santos. Não queremos ouvir falar de subir montanhas – interiores ou exteriores a nós -, de superação, de ousadia, de sacrifício. Aventuras… só aquelas que não tiverem necessariamente consequências, as que não comportarem um risco real – o que impede que sejam realmente aventuras…
Somos, cada vez mais, um pedaço de carne mole estendida à sombra. Olhamos, na rua, para uma multidão e cada vez temos mais a sensação de que não se diferencia muito de um rebanho, de que constitui uma massa amorfa sem individualidades.
E, no entanto, esse rebanho segue um caminho; obedece a indicações precisas, aceites por todos. Mesmo as coisas mais disparatadamente contrárias à nossa natureza, ao nosso bem, à nossa felicidade, são pacificamente aceites por todos.
Há alguém – há interesses – por trás da forma como, por exemplo, são orientados muitos meios de comunicação. Estes nossos tempos têm os seus “profetas” escondidos, que erguem o dedo e apontam caminhos que quase todos seguem docilmente, como ovelhas tontas a quem basta a sua dose diária de erva verde, de sombra e de descanso.
Transformar uma multidão de seres inteligentes em rebanho foi – está a ser – uma gigantesca tarefa, reveladora de grande inteligência. E , também, de muito desprezo pelos outros seres humanos.
Qual foi a tática? Foi, sem dúvida, complexa. Mas o seu elemento mais decisivo consistiu em fazer crer às pessoas que se estava a defender os seus interesses, os seus direitos e a sua liberdade. Como se esses “profetas” se preocupassem generosamente com os interesses das outras pessoas… Como se alguém tivesse visto essa gente a fazer voluntariado em hospitais ou a distribuir os seus bens aos mais pobres…
Esta linguagem – “os vossos direitos, a vossa liberdade”… – soa bem aos ouvidos de qualquer um… É atrativa, quase irresistível. Com ela conseguiram mudar a mentalidade de muitos e alterar o tom da sociedade.
Quando lhes interessou que diminuísse o número de nascimentos de crianças, procuraram que as mulheres passassem a estar fora do lar (“A condição e a utilização das mulheres nas sociedades dos países subdesenvolvidos são particularmente importantes na redução do tamanho da família… As pesquisas mostram que a redução da fertilidade está relacionada com o trabalho da mulher fora do lar”, lê-se no tenebroso Relatório Kissinger, pag. 151). Para isso, não fizeram leis que obrigassem a mulher a trabalhar longe de casa, porque isso apareceria claramente como um abuso e uma ingerência e se estava numa altura em que o mundo não admitiria novas tiranias. O que fizeram foi divulgar a ideia de que a mulher tinha tanto direito como o homem a trabalhar fora do lar. E as mulheres empertigaram-se… e a mensagem passou.
E não quiseram, pelo mesmo motivo, obrigar a mulher a abortar. Disseram-lhe que tinha o direito de “interromper a gravidez” porque a gravidez era um assunto apenas dela.
E não disseram aos casais que tivessem poucos filhos. Mostraram-lhes, simplesmente, como era bom consumir; que tinham tanto direito como os outros à qualidade de vida (ter muitas coisas…). Apenas lhes fizeram notar que com cada filho se gasta uma fortuna… e que cada filho que viessem a ter teria também o seu direito à qualidade de vida.
E, no início, não divulgaram diretamente o homossexualismo. Falaram às pessoas de liberdade sexual, da livre escolha de cada um nesse campo.
E não impediram os pais de educar os filhos. Falaram do direito à educação, concretizando-o em leis – obrigatórias!… – que encaixotam as crianças, desde tenra idade, em escolas que não são exatamente centros educativos. Nesses lugares – longe da vista dos pais – ensinam atualmente os jovens a terem relações pré-matrimoniais “seguras”. E a bondade da “opção homossexual”. E outras coisas do género.  É nisto – unicamente nisto – que consiste aquilo a que pomposamente chamam “educação sexual”.

Tudo aquilo que, ao longo da história, muitos tiranos tentaram, sem grande sucesso, realizar através da força – seleção de raça, super-homem, eliminação dos deficientes e dos velhos e dos inúteis, homem-ovelha facilmente conduzido – está agora a ser conseguido sem grandes ondas…

sábado, 31 de outubro de 2015

Ponto de Passagem


As mulheres têm coisas que irritam um homem até mais não poder. Possuem uma sensibilidade exagerada, que as leva a amuar por tudo e por nada; tendem a dizer as coisas apenas por meias palavras; são vingativas; fartam-se de gastar dinheiro em roupa; ligam imenso ao que as outras dizem; insistem constantemente em miudezas que mais ninguém consegue ver; se as deixarem, falam durante horas seguidas de coisas desinteressantes.
Os homens, por seu lado, levam qualquer mulher ao desespero. Comportam-se, irresponsavelmente, como crianças grandes; não reparam nas coisas mais óbvias; são desleixados no vestir, na limpeza, na arrumação; ligam mais ao trabalho e aos amigos do que ao que se passa em casa; preferem o futebol da televisão aos filhos e à mulher.
É, portanto, irracional que o homem e a mulher se juntem um ao outro e constituam uma família. É por isso que se torna necessário que a natureza – para os enganar – arranje uma temporada de cegueira mental, a que se chama paixão, e os atraia através de um instinto puramente animal.
Fora dessa temporada, as coisas estão no seu devido lugar: durante a infância, os rapazes preferem conviver com rapazes e as raparigas com raparigas; depois de passar a paixão, há aqueles conflitos que todos conhecemos e os arrependimentos tardios de quem se deixou cair na armadilha…
Mas não! As coisas não são bem assim.
Acontece que estes raciocínios assim tão redondinhos estão muitas vezes longe de serem verdadeiros, e não expressam com exatidão a realidade das coisas.
A natureza não nos enganou.
Uma das coisas mais maravilhosas que ela nos oferece é, sem dúvida, a forma harmoniosa de o homem e a mulher se completarem. Em geral, que seria de um homem sem uma mulher? E o que seria de uma mulher sem um homem? Não passariam de seres incompletos, qualquer coisa como uma faca que não tivesse lâmina, ou que não tivesse cabo.
A paixão é uma coisa maravilhosa, que leva uma mulher e um homem a unirem as suas vidas no objetivo comum de fundarem uma família e educarem os filhos. É, porém, necessário que a paixão, para ter sentido, se torne fecunda. Ela não deve nunca ser considerada um fim em si mesma, porque, pela sua própria natureza, não pode ser senão um ponto de passagem.
Mas hoje os casais não têm filhos, ou têm poucos filhos, ou não se empenham – pai e mãe – na educação dos filhos como grande objetivo da sua união.
E, então, já não há quase nada que os una. A paixão, ao inevitavelmente passar, deu lugar a… nada. A um aborrecimento vivido em comum. A um vazio no qual não têm ponta de sentido as qualidades femininas e as qualidades masculinas, por falta do objeto a que deviam aplicar-se.
Só têm então relevo os defeitos, ou as qualidades que, carecendo de objeto, se desvirtuaram e se tornaram maçadoras.

A natureza não errou. Nós é que saltámos para fora dos seus planos. Nada que, em grande parte dos casos, não tenha emenda.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O Mundo Esta Salvo


Recomeçaram as aulas. É tempo de retomar gestos familiares, em desuso durante umas semanas. Tempo de estar de novo à frente de um grupo desconhecido de alunos que esperam que lhes diga alguma coisa. Digo o meu nome e nunca sei muito bem o que devo dizer a seguir, mas as coisas acabam sempre por se comporem. Quando penso no que devo dizer, nunca digo aquilo que pensei previamente. E já me deixei disso.
Felizmente, daqui a poucos dias já nos conheceremos perfeitamente. Nunca precisamos de muito tempo para nos conhecermos bem… O que não for dito agora virá mais tarde e permanecerá. Saberão – não é preciso que lhes diga agora – que farei com que se cansem. Saberão que para chegar ao poema é preciso exercitar antes a sintaxe e outras coisas aborrecidas. Hão de queixar-se, mas eu terei vontade de rir quando vierem a descobrir, surpreendidos, que são capazes do poema. Só lá para o 3º Período… Antes disso, terão de escrever e apagar, escrever de novo, ouvir uma reprimenda, levar um recado para os pais…
Recomeçaram as aulas. Há exatamente um ano eu era um ano mais novo. Depois disso passaram 365 dias em que me encantei e me desencantei; em que me cansei; em que aprendi o que gostaria de não ter aprendido; em que descobri mais coisas que já não sou capaz de fazer. Envelheci. Mas os meus alunos, cujos rostos ainda não sei associar aos nomes, têm os mesmos 13 anos de há um ano atrás. É, de certa forma, estranho… O tempo passou por mim, mas não por aqueles que se encontram agora sentados à minha frente.
É sempre assim. E, sempre que é tempo de suceder isto, eu sei que o mundo está salvo. Enquanto houver jovens de 13 anos, o mundo está salvo.
Porque as minhas alunas adoram crianças – quase todas desejam ter, no futuro, profissões como educadora de infância ou médica pediatra. Porque gostam imenso de animais e gostariam muito de praticar equitação, se isso aqui fosse possível. Porque têm uma letra bonita e põem a língua de fora enquanto escrevem a composição que lhes mandei fazer.
Porque os meus alunos são saudavelmente tontos, como é próprio desta idade, mas têm neles um espaço para o sonho e para uma ambição que não fechou ainda as portas à nobreza. Porque têm um dinamismo enorme e não conseguem estar quietos durante muito tempo. Escrevem, no papel que lhes entreguei, que tencionam tirar um curso superior, mas ainda não sabem qual… e isso é delicioso.
Porque sabem dizer os seus defeitos e as suas qualidades com uma clareza notável, e ainda não aprenderam muito bem a ocultar, a torcer, a disfarçar.
Porque há ali vidas abertas a aprender, a ser mais, a ser melhor.
Recomeçaram as aulas. E em cada um dos alunos deste grupo – no meio do qual não me sinto perdido porque… afinal há muitos anos que os conheço – há um sorriso, uma promessa e um mistério.

E encho-me de esperança, porque é possível que não reparem muito em nós e no nosso mau exemplo. Porque pode acontecer que se cansem da podridão que lhes servimos na televisão e se dediquem a ter amigos, a ouvir música, a ler, a pintar, a escrever, a disparates sadios. Porque talvez muitos deles encontrem ao longo dos próximos anos uma orientação para a sua força, um norte para a sua ambição, um ombro para os seus desânimos: alguém sem medo de lhes dizer a verdade sobre a vida, o amor, o sofrimento e a morte.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O Zé


Em casa, o Dr. José Gonçalves é o Zé.
Ali, longe das câmaras da televisão, das reuniões do conselho de administração, dos jornalistas, do patrão, dos empregados, dos clientes, dos alunos, dos doentes, dos colegas… é somente o Zé.
Calça os chinelos, faz gestos prosaicos, resmunga, ri à vontade, permite-se caprichos, cantarola na ducha.
Conhecem-lhe as manias e os gostos; sabem como comportar-se quando está mal disposto, o que dizer para o convencer, que coisas o entusiasmam. É lá que realmente festeja o aniversário, é lá que lhe dão o prato preferido nos dias especiais. E sabem quais são os dias especiais. Em casa, o tempo tem assim cantinhos aconchegados como os tem o espaço. E há ritos velhinhos, cheios de sentido.
Em casa está tudo cheio de sentido.
Em casa pode errar. Em casa compreendem-no. Em casa ouvem aquilo que tem para dizer com verdadeira vontade de o escutar e de sentirem verdadeiramente as mesmas coisas que ele sente. Em casa dão tudo por um sorriso nos lábios dele.
Em casa têm uma paciência infinita. E sabem – pela forma como enfia a chave na fechadura, por uma certa expressão quase insensível do rosto – que aquele dia não correu lá muito bem.
Esperam um pouco – fingindo que não repararam em nada… – mas não tardam a contar-lhe coisas agradáveis, a pôr uma música que ele aprecia, a recordar episódios fantásticos que viveram juntos, a trazer umas fotografias antigas cheias de sabor, a lembrar-lhe que no Domingo há o Porto-Sporting… Até que ele dê a devida – a pequena – importância àquilo que o preocupava.
E, se o assunto for ainda mais sério, é certo que alguém, lá mais para o sossego da noite, se senta a sós junto dele e lhe diz baixinho: “conta lá…”.
O Zé termina sempre comovido os seus dias maus. Apetece-lhe agradecer e, às vezes, chorar.
Lá fora, o Dr. José Gonçalves é valorizado de acordo com aquilo que produz, de acordo com a sua maneira de funcionar. Pode descer ou subir na hierarquia da empresa, pode ser despedido ou promovido, ter um vencimento maior ou menor. Em casa, gostam do Zé assim como ele é. A família é o único lugar onde gostam do Zé por ele ser quem é: o filho, o marido, o pai, o irmão; aquela pessoa, com tudo o que faz parte dela, independentemente das suas qualidades e dos seus defeitos e daquilo que possa produzir.
Na família, aquilo que os une está num plano imensamente superior a tudo aquilo que os possa afastar. Muito acima das discórdias, das zangas, dos amuos, dos diferentes pontos de vista. Podem as ondas enfurecidas de um mar de inverno salpicar as estrelas? Alguém ligou aquelas vidas com um nó, e a vida de um é a vida dos outros. E o sorriso de um é a alegria dos outros. E a dor de um é a dor dos outros.
Mas o homem de hoje tem vindo a destruir – com uma frequência enorme e inexplicável – a sua família…

E, ao fazer isso, suicida-se de algum modo. Aniquila a sua personalidade, exila-se da pátria, abdica do seu reino. Transforma a sua pessoa numa coisa, pois passará a viver apenas nos ambientes em que é valorizado somente por aquilo que produz. Deixa de ser uma pessoa para passar a ser um funcionário…

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A Vida é Bela


Todos os homens podem, e devem, em qualquer circunstância, considerar que a vida é bela e viver de acordo com isso. Ninguém tem motivos para a considerar desprovida de nobreza e grandiosidade. A dor e as contrariedades sempre fizeram parte da vida dos homens, e nem por isso eles deixaram de a amar.
Mas acontece que nesta vida se sofre realmente, e que – ao contrário do que antigamente sucedia – aqueles que sofrem são agora muitas vezes abandonados pelos outros, e têm de viver sozinhos com a sua dor. À qual se acrescenta, então, a dor enorme da solidão.
Sempre houve doentes e anciãos, mas antigamente eram considerados um tesouro. Agora não passam de um estorvo… E é só por isso que hoje se fala em eutanásia, quando no passado havia apenas o suicídio: o suicídio é uma decisão pessoal; a eutanásia acabará por ser uma imposição da sociedade.
Há em muitas cabeças uma noção da vida que é chocantemente pobre, desagradavelmente rasteira, tristemente vazia. Consiste em olhar para a vida de uma forma utilitária, com base numa concepção egoísta e em critérios apenas econômicos: se uma vida não é útil – se não é produtiva, se não proporciona todo o prazer – então não tem razão de ser. Pode eliminar-se, como se elimina um automóvel velho ou sem conserto, um par de sapatos rotos, uma camisola demasiadas vezes remendada.
E nem sequer é nas pessoas muito doentes, ou nos idosos que estão perto da morte, que essa mentalidade é frequente. Não. É nos outros, nos que estão convencidos de que ainda vão ficar aqui muito tempo e se acham no direito de construir uma sociedade com regras que lhes parecem mais perfeitas do que as da natureza, livres de quaisquer critérios e valores que não sejam os econômicos e os do bem estar.
A grande questão da eutanásia não consiste em se cada pessoa pode, ou não, ter a liberdade de escolher o seu destino. E também não reside em se uma pessoa pode pedir a outra que a mate.
É ainda pior do que isso: a questão está em que o triunfo desta visão utilitária da vida levaria – como, de resto, já está a suceder na Holanda – à eliminação de pessoas que, não querendo elas mesmas acabar com a vida, são consideradas inúteis por uma sociedade que se tornou materialista (a decisão é transferida para os médicos e para os familiares, e para os parlamentos, que muitas vezes estão ansiosos por se verem livres de um fardo).
Assim é que desaparece realmente a liberdade de escolher o próprio destino, e as pessoas se tornam em objetos à mercê dos interesses econômicos e dos falsos critérios de utilidade social.
É muito fácil aproveitar-se da extrema debilidade – física e emocional – de um doente terminal. Até para o convencer das presumíveis vantagens de uma “morte doce”. Muito mais fácil do que proporcionar-lhe todo o apoio e carinho de que necessita para levar a vida até ao fim – sem desistir – e morrer com verdadeira dignidade.

A dor é também uma falsa questão. A medicina sabe tirar a dor, e o resto… aguenta-se. O pior é a solidão e o abandono. Isso é que é difícil de suportar. E tem uma solução bem simples… Bastaria que todos os que estão à volta do doente olhassem para aquela vida – para a vida – sem egoísmo.

Porque


Já tinhas dito que sentias a morte perto. Tremia-te a voz e tremiam-te as mãos e tinhas o corpo cheio de dores. Depois, enquanto a tua imagem diminuía e se apagava diante do nosso olhar, crescias ainda mais nos nossos corações.
Em ires até ao fim houve uma forma de nos gritares aquilo que a tua voz já não era capaz de dizer.
Já de muitas maneiras te tínhamos agradecido, mas é conveniente dizer-te de novo um obrigado imenso.
Porque só tu nos disseste a verdade.
Os outros disseram-nos aquilo que queríamos ouvir e aquilo que nos agradava – pois queriam ganhar adeptos e lucrar com isso – mas tu, como amigo sincero, não tiveste receio de usar as palavras verdadeiras. Ainda que fossem duras, ainda que corresses o risco de ficar sozinho.
Porque, se o caminho real era empinado e agreste, não nos indicaste outro mais à medida da nossa preguiça, da nossa avareza, da nossa luxúria. Não quiseste enganar-nos. Disseste-nos como podíamos encontrar-nos conosco mesmos e confiaste em que seríamos capazes de ser fortes.
Porque os outros quiseram enriquecer à custa de ficarmos desnorteados, e tu quiseste tornar-nos ricos gastando o teu sangue e a tua vida.
Porque o teu dia começava cedo e acabava tarde. Porque tinhas, com tanta idade, a agenda tão cheia. Rezavas e trabalhavas, mas ao rezares trabalhavas e ao trabalhares rezavas. Ninguém sabe dizer quando é que descansavas.
Porque foi sempre para ti que olhámos em primeiro lugar, quando os poderosos preparavam novas guerras nos lugares onde há petróleo, quando o ódio derrubava edifícios, quando chegavam notícias de novos “avanços” científicos que pareciam fantásticos, mas nos cheiravam a esturro.
Porque os teus olhos eram limpos e o teu sorriso era bom e o teu coração bateu sempre ao lado do nosso.
Porque eras um dos nossos nas tuas vestes brancas. Porque envelheceste cuidando de nós. Porque foste baleado por dizeres a verdade. Porque não andavas mascarado, como os outros.
Porque não ficaste no teu palácio de Roma, mas vieste ter conosco até aos cantos mais pequenos do mundo e quiseste aprender conosco e sentir os nossos entusiasmos nobres. Porque quiseste falar-nos nas nossas línguas.
Porque quando te apresentámos as nossas crianças tu as beijaste e abençoaste sem fingimento, como quem faz uma coisa muito, muito importante.
Porque quando olhavas para nós vias uma bondade e uma força e uma beleza em que já não acreditávamos.
Porque o pequeno e o grande tinham um lugar do mesmo tamanho no teu coração. Porque não te preocupaste apenas com os que te eram próximos no pensamento, mas resolveste carregar sobre os teus ombros as dores, as preocupações, os lutos e as lágrimas de todos os homens de todas as religiões.
Porque guardavas no teu coração as nossas dores e sofrias com elas e nós somos muitos. Porque de tanto te abraçares ao teu Cristo crucificado te tornaste tão humano. Porque também escreveste as tuas poesias.

Porque salvaste tantas vidas. Porque trabalhaste pela paz. Porque chegaste ao fim de um caminho tão longo cheio da juventude do amor. Porque morreste repleto de obras e de sonhos, olhando para as tuas mãos, tão cheias, com a impressão de as veres vazias.

sábado, 8 de agosto de 2015

O Pequeno Dever


Há uma falta de sal em tudo, uma falta de cor, uma falta de encanto.
Perdemos qualidade. Nas canções, nas danças, na literatura, na pintura, na arquitetura… Os nossos heróis são pessoas vulgares que se pintaram, ou, então, canalhas por quem nos deixámos enganar.
Quando fazemos turismo, visitamos antigos monumentos ou os monumentos da natureza: há muito que não fazemos nada que mereça ser apreciado. As grandes obras desta época foram coisas destinadas a fazer dinheiro…
Quando lemos (de qualquer modo sempre preferimos um filme, porque dá menos trabalho e é mais rápido…), lemos os livros que estão na moda. A moda, porém, não resulta – principalmente nos dias que correm – de um critério de qualidade, mas de campanhas publicitárias bem estudadas, que se destinam… a fazer dinheiro. Os outros escolhem por nós. E recolhem todo o benefício.
Somos homens entretidos com o nosso conforto e com o nosso prazer. Esquecemos que devíamos fazer da nossa vida uma obra-prima; que estávamos aqui para encher uma medida; que tínhamos um caminho empinado para percorrer.
Recusámos a santidade – porque era trabalhosa – e, com ela, partiram a beleza, a poesia e o amor.
Devia ser a busca da santidade a levar-nos por dentro de nós mesmos até chegarmos a um estado de tensão e de beleza interior que nos possibilitasse produzir coisas belas. Mas assim, não: ninguém pode dar aquilo que não tem.
Esvaziámo-nos. E agora as nossas mãos desenham à nossa volta figuras vazias.
Já nem sequer somos verdadeiramente capazes de amar. Por termos deixado de lutar contra o nosso pior inimigo – que somos nós mesmos, aquilo que de mau existe em nós – não somos verdadeiramente senhores das nossas pessoas. E, por isso, não temos a capacidade de nos darmos aos outros – que isso é o amor.
Evitamos os compromissos sérios, fugimos das palavras que não têm retorno; fugimos, portanto, do casamento (e se não fugimos desfazemo-lo quando surgem dificuldades). E isso é outra manifestação de não sermos donos de nós mesmos, de não termos tido as vitórias interiores necessárias para sermos homens no verdadeiro sentido da palavra. Não somos livres.
Os santos e os heróis… reduzimo-los a bonecos de gesso, a estátuas de calcário fora de moda colocadas em igrejas ou praças. Não olhamos para eles. Admitimos – convém-nos admitir isso… – que não passam de lendas: como seria possível a existência de homens tão diferentes daquilo que agora vemos em nós e à nossa volta? Passamos por alto, com a maior das facilidades, os milhões de documentos históricos…
E, no entanto, a santidade não é nem impossível nem feita de coisas estranhas: constrói-se no dia-a-dia, com as coisas e as situações em que tocamos habitualmente. Um homem que admiro muito e que nasceu há cem anos escreveu, entre muitas outras coisas, isto: “Queres deveras ser santo? Cumpre o pequeno dever de cada momento: faz o que deves e está no que fazes”. (Josemaría Escrivá, “Caminho”, n.º 815)
Um sorriso amável no meio do cansaço, terminar bem uma tarefa profissional, deixar um objeto arrumado no seu lugar, fazer neste momento o que não deve ser adiado, optar pelos meios honestos, procurar a verdade de cada situação, prestar um pequeno serviço a quem está perto de nós. Hoje um pouco melhor do que ontem.

O pequeno dever de cada momento: não é preciso ir longe para chegar longe!

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O Rei


Amanhã enterrareis no grande fosso as vossas máquinas. Será com as mãos que haveis de crescer. Eu sou o rei e assim decidi, pois é necessário que deixeis tudo aquilo que vos impede de ser homens. Eu, o rei, utilizarei apenas as mãos.
Amanhã começareis a demolir as cidades. Depois partireis e fareis aldeias nos cumes do vento e nas colinas verdes e nos campos banhados de sol. Vivereis do vosso esforço, à mercê das dificuldades de que vos tinham ensinado a fugir. E haveis de abraçá-las.
Tereis então necessidade de vos ajudardes uns aos outros, voltando assim a descobrir coisas antigas e profundas. Compreendereis como sois pequenos, e isso é uma condição importante para poderdes crescer: para poderdes vir não a ter coisas, mas a ser aquilo que a semente de vós deve originar.
Eu, que sou o rei, partirei à vossa frente, e convosco sentir-me-ei pequeno e fraco.
Não posso oferecer-vos facilidades, porque quero ver-vos sorrir. Forjei a minha lei, e ela será o rosto do vosso caminho e as paredes da vossa casa. Hei de conduzir-vos por onde não vos apetece ir, para vos levar até dentro de vós mesmos.
E quando tiver passado a dor de transformar-vos naquilo que tendes necessidade de ser, hei de olhar para vós como Deus olha a Primavera num dia de Maio; como a mãe olha para o filho que nasceu agora.
Porque eu, o rei, sou a vossa mãe e o chicote que vos fere a carne. Não hesito no caminho que vos digo: alicerço-me em pó de reis e na luz do alto e na voz do sangue. E no cantar dos poetas.
Eu, que sou o rei, sou também a vossa luz; e sou aquilo que dá sentido aos vossos esforços e aos vossos sonhos. Porque eu existo, podeis ser como uma só coisa, apesar das vossas diferenças.
Se não fosse assim viveríeis em constantes disputas, e não saberíeis ir numa mesma direção. Porque não seríeis um povo, mas um grupo de gente.
É o pastor que dá unidade às ovelhas. Chama-as em assobio, para que sejam mais do que ovelhas. E eu, que sou o rei, sou também esse pastor que sai de madrugada. Alegro-me convosco e sofro as vossas dores e sei o vosso nome. E faço de cada noite minha uma vigília, pois só me deito depois de apagardes as vossas luzes.
Eu, que sou o rei, sou homem como vós. Quero que saibais isto. No princípio envergonhava-me quando vínheis ajoelhar-vos diante de mim. E tinha vontade de ir a correr erguer-vos. Depois compreendi que devia também curvar-me perante aquilo que vem do alto e, para chegar a vós, tem de passar por mim.

Porque eu, o rei, sou apenas um transmissor e uma ponte, e ninguém obedece tanto como eu. Em mim deveis amar aquilo que vem através mim: o resto é quase nada e podeis esquecê-lo.

sábado, 25 de abril de 2015

Spartacus


Não há muitos dias, tive oportunidade de rever um filme dos antigos: Spartacus, dirigido por Stanley Kubrick.
Ocasião para confirmar que antigamente – tal como hoje – a corrupção se cola preferencialmente aos ricos, e que os pequenos são capazes de coisas maravilhosas ainda que lutando contra tudo e contra todos.
É apenas um filme, sem dúvida. Mas aquela revolta dos escravos – que existiu historicamente e colocou efetivamente em causa  o poderio romano – não teria sido o que foi se as coisas não se tivessem passado desse modo, mais coisa menos coisa, pelo menos nos aspectos essenciais.
Ocasião, também, para lembrar certas cenas que já não recordava exatamente e tinha fome de rever.
Uma delas sucede depois de os escravos terem perdido a batalha final. Os sobreviventes estão sentados em grupo no chão, rasgados e feridos. O comandante da Legião romana anuncia-lhes que escaparão à morte se o informarem de qual deles é Spartacus, no caso de ainda estar vivo. E Spartacus está realmente vivo, sentado entre os amigos.
O momento é de grande tensão. O realizador foca os olhos do chefe dos revoltosos e os olhos de vários dos companheiros. Está muita coisa em jogo: a vida de todos eles.
Eram amigos. Aqueles meses de contrariedades, lutas e perigos vividos em comum tinha-os unido de tal forma que era como se formassem uma só coisa. Agora os romanos queriam apenas o chefe…
Acontece por vezes que as grandes decisões se têm de tomar em muito pouco tempo. Spartacus ergue-se para revelar a sua identidade. A sua morte libertará os amigos. Mas quando vai dizer as palavras fatais, há um companheiro que se levanta mesmo ali ao lado e diz: “Eu sou Spartacus”.
É mentira, mas ele di-lo. Talvez porque de alguma forma seja verdade…
E logo outro homem se levanta, dizendo as mesmas palavras. E outro. E outro… Depressa estão todos de pé diante do oficial. Todos eles são Spartacus… e acabarão por morrer crucificados, um após outro, numa fila de cruzes que encheu quilómetros de estrada até entrar em Roma.
Existe algo de grandioso na atitude de Spartacus, que se entrega para salvar a vida dos amigos. Mas não é menos bela a reação dos companheiros. E há qualquer coisa em tudo isto que nos atrai irresistivelmente, porque o bem é atraente.
A lealdade consiste em não abandonarmos os nossos deveres e compromissos; em não abandonarmos os nossos amigos e as pessoas que confiaram em nós. É uma manifestação da grandeza da liberdade humana: leva-nos até ao fim do caminho que escolhemos, apesar de todas as dificuldades e obstáculos.
Na cor aparentemente cinza de estarmos todos os dias fielmente no nosso lugar, existe, escondido, o ouro daquilo que é sólido, firme e verdadeiro. Um homem leal é como uma rocha. Transmite segurança e espalha luz à sua volta.
Ao longo da História dos homens, como na cena do filme, a lealdade conduziu muitas pessoas a grandes sofrimentos e, até, a uma morte cruel. Mas, nos nossos dias, é uma virtude esquecida. Qualquer par de moedas, qualquer novidade aparentemente vantajosa nos faz esquecer os deveres e nos leva a quebrar os nossos laços, enchendo a nossa vida de traições a que nos vamos habituando.

Talvez devêssemos ver mais vezes filmes antigos…

segunda-feira, 20 de abril de 2015

À Maneira da Raiz


“Quando eu era pequeno… E mergulho fundo na minha infância. A infância, esse grande território de onde todos saímos! Pois donde sou eu ? Sou da minha infância. Sou da minha infância como se é de um país…”, escrevia Saint-Exupéry numa das suas obras: O Piloto de Guerra. Todos, realmente, comprovamos isto diariamente. O nosso mundo interior está povoado de imagens e recordações, muitas vezes nebulosas, que têm origem nos anos da nossa juventude. Em muitas ocasiões, temos, até, de recuar a essas épocas da nossa vida para compreendermos certas atitudes, hábitos, reações, gostos, que fazem parte da nossa maneira de existir.
Basta pensarmos em como nos sentimos tão estranhamente mergulhados em magia se, por acaso, depois de muito tempo de ausência, revisitamos lugares, ou encontramos pessoas, ou relemos livros que fizeram parte dos nossos verdes anos.
Como miúdos que éramos, brincávamos, sonhávamos, amávamos a aventura e entusiasmávamo-nos com feitos grandiosos. E, inevitavelmente, agarrávamo-nos aos heróis dos livros e dos filmes e das histórias que nos contavam. Esses heróis, juntamente com os comportamentos que porventura observámos naqueles que então nos rodeavam, ajudaram a construir a nossa personalidade. Para o bem ou para o mal. De alguma maneira, temos tendência a identificarmo-nos com os heróis (ou principais personagens, ainda que não sejam muito heroicas…) das narrativas e da vida. E fazemos de algo deles substância nossa.
Somos da nossa infância – de uma infância habitada por essas personagens – e não podemos fugir a isso. O nosso passado mais antigo persegue-nos e, em parte, explica-nos. Sucede como com a árvore, que não consegue libertar-se da sua raiz…
Como são os heróis que atualmente propomos como exemplos aos mais novos nos filmes e nos livros? São, sem dúvida nenhuma, na sua maior parte, inadequados: personagens com muito músculo ou grande beleza, ou com muita inteligência, ou muito bem equipadas materialmente. É muito pouco. Como exemplos, não servem de grande ajuda na tarefa de construir um homem, que é aquilo que se pretende com a educação.
Para enfrentar a vida, que é tão difícil, não se pode negar que qualquer uma dessas coisas dê bastante jeito; porém, facilmente se compreende que nenhuma delas é essencial. Nenhuma delas faz necessariamente, nem mesmo muito frequentemente, parte das características pessoais dos seres humanos. Nenhuma delas, além disso, é capaz de ser útil, se faltar um substrato mais profundamente humano: aquilo de que se faz um homem: os valores humanos.
Para que servem os músculos, quando chegar a hora de haver um cancro nesses músculos? Para que serve, sozinha, a inteligência, se ela, como lhe compete, nos mostrar um caminho que, por não termos coragem nem força de vontade, somos incapazes de seguir? Que é feito da beleza quando se envelhece? Sem os valores humanos, sem as virtudes humanas, andamos pela rama. Teremos, apenas, aparências de homens, projetos humanos inacabados, fracassos existenciais comprováveis na hora da verdade.
Propor aos jovens que se revejam e que se identifiquem com personagens destas é estar a enganá-los. É, além disso, escrever na água. É assim como tratar de enfeitar o que não existe: pregar um belo quadro numa parede que não tem estuque nem tijolos. Para haver uma rosa é preciso haver antes uma roseira; para haver um homem feliz é preciso haver, antes, um homem.
Precisam os jovens – e precisamos nós – de mais qualquer coisa: de exemplos de valentia, de honradez, de lealdade; precisam – precisamos – de ver noutras pessoas (também nas personagens das histórias) exemplos vivos de como podem e devem ser encarados a vida, o trabalho, o amor e a morte.
Existiram livros e filmes que cumpriam esse papel, mas agora não estamos bem servidos. Conheço pais que guardaram cuidadosamente, durante muitos anos, os livros da sua juventude e, chegada a altura, os entregam aos filhos, entretanto já suficientemente crescidos, como quem entrega um tesouro; conheço educadores que periodicamente visitam alfarrabistas em busca de um género de livros que já não podem ser encontrados noutros mercados mais acessíveis…
Quem me dera que as pessoas que têm responsabilidades neste campo entendessem melhor como são grandes, e graves, essas responsabilidades! Se a literatura juvenil e os filmes descerem o seu nível, farão, inevitavelmente, descer o nível dos homens do futuro. Publicar coisas para entreter os jovens, ou para fornecer informação, é bom. Mas não é suficientemente bom…

Está alguém comigo?

sábado, 18 de abril de 2015

Há Muitos Caminhos


Quando, há anos atrás, éramos bombardeados com a ideia de que havia no mundo uma população demasiado grande para a quantidade de alimento que era possível produzir, parecia existir uma certa lógica em que a solução evidente consistiria em reduzir a população mundial. Diziam-nos não que  era preciso encontrar as formas de produzir mais, ou de distribuir melhor o que se produzia, mas sim fazer com que aquilo que era produzido chegasse para todos, fazendo diminuindo o número desse “todos”. Os sobreviventes poderiam, desta forma, usufruir de um excelente nível de vida.
Assim se acabaria com a pobreza. Eliminando os pobres, elimina-se a pobreza. É evidente…
Depois, essa teoria não resistiu – embora ainda persista em muitos ambientes – a uma análise racional e objetiva dos fatos. E aceitam-se agora melhores caminhos que, implicando maior esforço, são mais humanos.
Quando a evolução da ciência nos permitiu conhecer melhor e manipular os processos de transmissão da vida humana, aperfeiçoaram-se as técnicas de abortar, de forma a poderem ser eliminados aqueles bebés que muito possivelmente nasceriam com alguma imperfeição.
E, quando a vida já não tiver para nós aquela qualidade que julgarmos necessária, teremos brevemente (nunca, espero eu…) formas de terminar com ela de forma doce, praticando a eutanásia…
Sonhamos com o dia em que seja possível escolher todas as características do filho que nos vai nascer: cor dos olhos e do cabelo, potência muscular, capacidade cerebral. E um caráter perfeito, todo de acordo com o nosso gosto. E sentimentos irrepreensíveis.
Somos  adeptos fervorosos da perfeição… E nem nos ralamos se, para chegarmos a ela, nos servimos de métodos… imperfeitos. Ou degradantes, ou vis, ou criminosos.
Não toleramos que a natureza, de acordo com os parâmetros que construímos na nossa mente, cometa erros ou permita anomalias.
De entre os adeptos da perfeição, Hitler foi um dos mais famosos…
E temos também um grande apreço pela justiça… Não é justo que existam pobres e ricos. Não compreendemos que possam viver, ao lado dos sãos, coxos e cegos e aleijados.
Menos ainda compreendemos que um cego possa ser feliz.
E não compreendemos que um deficiente possua a capacidade de ser feliz com a sua deficiência, porque não possuímos essa capacidade. Mas por que razão havíamos de a ter, se não precisamos dela?
Lançamo-nos com todas as forças à tarefa de eliminar da terra as injustiças e os erros da natureza.
Queremos acabar com as anomalias, com o insólito. E o insólito para nós é aquilo que não conseguimos compreender.
Mas eu já vi os cegos rirem.
Encontrei, entre os que sofrem, homens grandes. Os maiores de todos.
Vi aqueles que fizeram da sua dor os poemas que lemos na escola. E os outros, que no sofrimento do exílio compuseram as sinfonias grandiosas que ficaram para sempre.
Inclinei-me perante esses que souberam aceitar a sua pequenez diante do Deus Criador, ou da sábia natureza – conforme o olhar de cada um – e por esse caminho encontraram a maneira de alcançar a grandeza.
Conheci as mães que amaram filhos que não teriam escolhido, e que, ao amá-los, se engrandeceram e se tornaram a tal ponto ditosas que não se trocariam por ninguém. E que não trocariam o seu filho por nenhum outro.
Há muitos caminhos. Todos eles são belos e podem terminar bem.
Mas nós inventamos um modelo de vida perfeita (ou inventaram-no para nós, e martelaram-no aos nossos ouvidos até nos convencermos de que é invenção nossa?). Fora desse modelo, consideramos que tudo é anomalia e erro.
Se continuarmos assim – Saint-Exupéry disse algo semelhante em A Cidadela – havemos de querer suprimir as pérolas, porque não passam de uma anomalia resultante de um erro das ostras. Mandaremos enforcar as mulheres mais simultaneamente belas e virtuosas, por não serem vulgares. Apagaremos dos livros os nomes dos homens que escreveram belas sinfonias e geniais poemas, porque eles não foram iguais aos outros homens.
Permitam-me que diga que não concordo.
Eu tenho grande estima pelo “erro”, porque, além de permitir o génio, introduz a variedade.  Para eu poder apreciar uma árvore alta, tenho de aceitar a existência das árvores baixas. Ou ao contrário, se por acaso eu quiser nesse dia apreciar as árvores baixas.
Além do mais, eu amo o deserto, que não é senão um erro da floresta. E amo o oásis, que não passa, por sua vez, de um erro do deserto.
Estimo o erro também porque ele, ao autorizar a sombra, permite a luz.
O que são, numa árvore, os frutos bons? Se eu não conhecesse os frutos falhados, como é que havia de saber que os outros eram bons?
E como havia eu de saborear as alegrias do reencontro, se não houvesse a ausência?
Que sabor teria para mim a água fresca, se não tivesse tido sede?
Permitam-me que afirme que tudo é bom e belo. E que utilize a minha voz para dizer que se deve deixar ser aquilo que é.

Será preciso ter coragem, em alguns casos? Pois sejamos corajosos, que isso não é nada de especial num homem.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Personificação


Estuda-se em literatura uma figura de estilo chamada personificação. Consiste esse recurso em atribuir características humanas a seres que não são humanos. Dizer, por exemplo, que o dia está triste é uma personificação, visto que a tristeza é realmente algo que, propriamente, está apenas ao alcance das pessoas.
Era suposto que isto não passasse de um truque de linguagem, de uma forma expressiva de manifestar uma ideia. Mas assistimos ao fato absurdo de que a personificação tomou de assalto, nos nossos dias, a realidade.
Nós, com enorme frequência, tratamos as coisas, ou os animais, como se fossem pessoas. Não já de forma ingénua e inofensiva (estou agora a lembrar-me, com Camões, da linda Inês ensinando aos montes e às ervinhas o nome que tinha escrito no peito, o de Pedro, como se eles a pudessem entender…), mas de maneira enganosa e tóxica. Como se tivéssemos perdido a noção da realidade.
Alguns exemplos dariam vontade de rir, se não fossem tristes. Como tantas pessoas recusarem ter filhos e depois entregarem o seu afeto maternal ou paternal a cães e gatos. Vestindo-os, levando-os ao veterinário, alimentando-os como reis, transportando-os em berços…
Mas esses casos clamorosos talvez não sejam o pior de tudo. São exemplos de substituição afetiva que os psicólogos conhecem bem. E que talvez consigam remediar em alguns casos.
O pior de tudo deve ser a tremenda realidade de tantos e tantos que constantemente caem no engano de, literalmente, se apaixonarem por objetos, procurando com a posse deles satisfazer as ânsias dos seus corações.
Deixamo-nos entusiasmar. Pensamos em como seremos felizes se possuirmos “aquilo”. Sonhamos com o que poderemos fazer quando “o” tivermos. Lutamos por “ele” com todas as forças. Fazemos sacrifícios que talvez não fôssemos capazes de fazer por uma causa nobre, pelo bem de um amigo, por um sorriso de alguém que amamos.
E sucede que isto tem todos os sintomas de uma paixão…
Haverá alguém a quem isto ainda não tenha sucedido?
Mas as coisas não podem dar-nos mais do que aquilo que permite a sua natureza. E o nosso coração não se deixa enganar perpetuamente. Passado o tempo da novidade, passado o tempo que o objeto leva a desatualizar-se, uma vez feita a nossa experiência de qualquer coisa que estava na moda, esses objetos têm um lugar garantido na arrecadação lá de casa…
E de cada vez que isso nos acontece temos uma oportunidade de reparar bem no que nos está a acontecer e de arrepiar caminho. Ou, então, de continuarmos cada vez mais para diante nesse disparatado percurso.

Ou compreendemos que as coisas não passam de coisas, e que são vazias, ou nos lançamos com renovada avidez a conseguir a nova moda, a tecnologia mais moderna, o modelo mais acima, a última novidade… fazendo figuras de parvo.