Senso Crítico

Senso Crítico
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sábado, 27 de julho de 2013

Olhar Que Adivinha



De todas as adivinhações do amor nenhuma é mais funda que a dos olhares que se atam e parecem não poder desprender. Namorados assim o fazem, paqueras, aranhas, serpentes, aves, répteis, mamíferos, amantes, amigos, esposos. O olhar aprisiona-se no mistério do outro. E fala de encontros não verbais,
essenciais. Economiza tempo. Avança ou retrocede milênios na adivinhação do próximo.

O que será, este olhar? Susto? Sustar é paralisar. Há uma paralisia quando o amor é pressentido.
Susto mas adivinhação.
Adivinhação mas procura. No olhar de quem se adivinha amando, paralelo à felicidade transmite-se procura, indagação,ânsia de descobrir que se veio ao mundo para resgatar as incompletudes daqueles com quem se relacionará profundamente, se os encontrar e souber que encontrou .

Procura mas encontro.
No olhar que se cruza e paralisa cheio de significações encontra-se a instância deslumbrante na
qual o ser se descobre aceito, querido e perdoado.

Encontro mas impossibilidade.
Tudo o que vai sendo proibido, velado, guardado, adiado, faz-se verdade no momento da
hipnose do olhar que se atrai sem explicação.

Impossibilidade mas permissão.
As barreiras, medos, a polidez, recatos, as resistências que surgirão (reação que não
se explica mas se tem) deixam de existir no instante do olhar
que devasse a verdade funda. A entrega pré/sentida.

Permissão mas mergulho na sombra.
O demônio que mora dentro, a criança, o anjo, o pecado, o perdão, a esperança,
todos os mecanismos secretos, guardados, não sabidos, raro assumidos, jazem fugidios e perceptíveis no olhar que se defronta.

Não me refiro ao olhar apaixonado. Falo de algo além,
o olhar que paralisa o outro. Que se apavora de adivinhar-se, possivelmente feliz, e se descobre em profundidade e espanto no poço do outro, no fundo do qual mora uma certeza nunca antes
confirmada. Nada o detém, limita ou qualifica. Contém a pluralidade constitutiva da vida.
Explode na hora do amor ou no instante da morte. Seus compromissos são com o fundo, o longe, o eterno, o imponderável,o denso, o lindo, a paz, a tragédia ou a glória. Sua relação é com as certezas que a razão nunca terá, mas a emoção, a intuição e o sentimento (que vão além), de há muito as conhecem. Este olhar existe quando e onde sempre existiu. E existirá, a despeito de nós.

Pintura -Desire -  Rob Efferan

domingo, 27 de janeiro de 2013

Quando o Amor Desanda



Grande parte (talvez a maioria) das pessoas procuram-se por
causa de diferenças complementares (que existem, e como!) que depois crescerão até distanciá-las. Há uma percepção antecipada
do que é falta, carência e insegurança nos nossos núcleos
internos. Procura-se, então, quem tem ou parece ter o que nos falta. No começo é ótimo. Depois... babau, embora haja relações
     que se baseiam a vida inteira nessas diferenças que se
                             complementam.
                                     
 A união entre duas pessoas - quando não é amor, mas nele se camufla -
  é a complementação de necessidades que, num dado momento da vida de
  cada um, parecem essenciais para a solução de suas dores, mágoas ou
         carências. Amor é deveras confundido com "necessidades
                           complementares".
                                    
 O progresso interior ou amadurecimento de apenas um dos membros do par
   amoroso, torna ainda mais instável a relação porque dela retira o caráter complementar que a mantinha. Dois espelhos, um defronte do outro, geram imagem infinita. Um só espelho reflete apenas a
  imagem de quem se olha. Olhar e ver o outro aplaca. Olhar e
          apenas ver-se é, para muitos, insuportável.
                                    
  Quando a evolução de uma das pontas do par amoroso dá-se de maneira
 mais rápida que a da outra, esta não tem mais em quem projetar as suas
     ansiedades. Uma parte já não aceita as cargas da outra, antes
    assimiladas por imaturidade, medo ou dependência econômica. Aí o
                 equilíbrio do par se abala. Ou rompe.
                                    
  Por evolução não se entenda apenas a intelectual. Esta é importante,
    porém não decisiva. Numa pessoa, há vários núcleos internos que
  podem ganhar graus ou ritmos evolutivos diversos: emocional, sexual,
        profissional, espiritual, físico, econômico, político.
                                    
    Somos seres variados, plurais. Nossa arquitetura interior possui
    elementos de vários estilos e escolas. Englobamos e amealhamos,
   tendências díspares, propostas diferentes em nossos vários núcleos interiores. Assim, em nossa relação mais profunda, que é
  a íntima, cada núcleo interior seja, intelectual, emocional, sexual, profissional, espiritual, econômico e político pode vir
                  a ter ritmos diversos de evolução.
                                    
      Somos seres tão estranhos, que podemos passar por evoluções
    intelectuais formidáveis e permanecer anos a fio estacionados ou
  cristalizados em outro núcleo emocional. Podemos evoluir emocional,
 profissional e politicamente e permanecer estacionados sexualmente, e
   repetir antigas, estacionárias ou primárias formas de exercício do
 instinto sexual. E assim por diante. É muito difícil evoluir por igual
 em todos os nossos núcleos interiores. Por isso desandam tantos casos
        de amor depois que se resolvem com a união das pessoas.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Órfãos Do Amor




Fico a pensar em todas as pessoas que estão trilhando o doloroso caminho da descoberta dos impasses com o ser amado; todas as que
estão descobrindo defeitos, desencontros, impossibilidades de
encaixes e de suplementação nas relações. Penso nos que estão
tentando gostar já não mais conseguindo. Sofro com os que colocam flores e esparadrapos na própria decepção ou no cansaço
de suas relações rotinizadas, robotizadas, endurecidas,
cristalizadas, congeladas.

Imagino a mulher se descobrindo em plenitude e liberdade diante
de um homem que a desejava passiva e submissa.

Penso no homem aberto e idealista, descobrindo as ambições
burguesas e meramente de status ou segurança da mulher, num mundo de
injustiça social e tanto por fazer.

Imagino a constatação dolorosa da afinidade sexual que já não
chega ou se vai.

Sofro com a convicção crescente de que o impulso de amor
anterior não foi substituído por sentimentos verdadeiros.

Corroo-me do ácido do desamor.
Sangro com os ódios surgentes como face oculta da relação antes
amorosa.

Rasgo-me com as descobertas dolorosas de que o antes amada é a
antítese, o oposto, o outro lado.
Padeço com a diferença do ritmo de evolução abatendo-se sobre os
amantes do meu bairro, do meu país e do meu mundo.

Vejo andamentos e aquisições vitais diferentes a motivar o
desencontro entre tantos amores antes parecidos possíveis.

Para onde vai toda essa energia amorosa que se acaba, diminui ou
deriva? Em que jardim moram os momentos de amor impedidos pelas
diferenças entre os casais? Como encontrar o potencial amoroso
que se recolheu, derivou, foi introjetado ou projetado num filho, numa causa nobre ou numa profissão? O mundo está cheio de
órfãos do amor quase possível. A cidade inteira está chorando pelos amores jogados fora. Como não são biodegradáveis e não se
dissolvem, esses amores estão por aí ganindo nas noites ou escorrem, melífluos, do olhar carente da gente que passa na rua.
Sim, há milhares de olhos mendigos pelas ruas. Eles estão
chorando pela perda da possibilidade de ter dado certo. Eles também me
assaltam, desesperados.

sábado, 5 de janeiro de 2013

O Amor




Por mais que o poder e o dinheiro tenham conquistado uma ótima posição no ranking das virtudes, o amor ainda lidera com folga. Tudo o que todos querem é amar. Encontrar alguém que faça bater forte o coração e justifique loucuras. Que nos faça entrar em transe, cair de quatro, babar na gravata. Que nos faça revirar os olhos, rir à toa, cantarolar dentro de um ônibus lotado. Depois que acaba esta paixão retumbante, sobra o que? O amor...

Mas não o amor mistificado, que muitos julgam ter o poder de fazer levitar. O que sobra é o amor que todos conhecemos, o sentimento que temos por mãe, pai, irmão e filho. É tudo o mesmo amor, só que entre amantes existe sexo. Não existem vários tipos de amor, assim como não existem três tipos de saudades, quatro de ódio, seis espécies de inveja. O amor é único, como qualquer sentimento, seja ele destinado a familiares, ao cônjuge ou a Deus. A diferença é que, como entre marido e mulher não há laços de sangue, a sedução tem que ser ininterrupta. Por não haver nenhuma garantia de durabilidade, qualquer alteração no tom de voz nos fragiliza, e de cobrança em cobrança acabamos por sepultar uma relação que poderia ser eterna.

Casaram. Te amo prá lá, te amo prá cá. Lindo, mas insustentável...

O sucesso de um casamento exige mais do que declarações românticas! Entre duas pessoas que resolvem dividir o mesmo teto, tem que haver muito mais do que amor, e às vezes nem necessita de um amor tão intenso. É preciso que haja, antes de mais nada, respeito. Agressões zero. Disposição para ouvir argumentos alheios. Alguma paciência. Amor, só, não basta. Não pode haver competição. Nem comparações. Tem que ter jogo de cintura para acatar regras que não foram previamente combinadas. Tem que haver bom humor para enfrentar imprevistos, acessos de carência, infantilidades. Tem que saber levar.

Amar, só, é pouco. Tem que haver inteligência. Um cérebro programado para enfrentar tensões pré-menstruais, rejeições, demissões inesperadas, contas prá pagar. Tem que ter disciplina para educar filhos, dar exemplo, não gritar. Tem que ter um bom psiquiatra. Não adianta, apenas, amar.

Entre casais que se unem visando à longevidade do matrimônio tem que haver um pouco de silêncio, amigos de infância, vida própria, um tempo prá cada um. Tem que haver confiança. Uma certa camaradagem, às vezes fingir que não viu, fazer de conta que não escutou. É preciso entender que união não significa, necessariamente, fusão. E que amar, "solamente", não basta.

Entre homens e mulheres que acham que o amor é só poesia, tem que haver discernimento, pé no chão, racionalidade. Tem que saber que o amor pode ser bom, pode durar para sempre, mas que sozinho não dá conta do recado. O amor é grande mas não é dois. É preciso convocar uma turma de sentimentos para amparar esse amor que carrega o ônus da onipotência. O amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta.

Um bom Amor aos que já têm! Um bom encontro aos que procuram! E felicidades a todos nós!

domingo, 4 de novembro de 2012

Sabes Receber o Amor?



 Do ponto de vista de quem recebe, o amor ganha contornos bem diferentes daqueles existentes do ponto de vista de quem dá. E é tão raro o empate entre dar e receber! Há pessoas absolutamente incapazes de receber o amor. Outras há que filtram o amor recebido segundo a sua maneira de ser, reduzindo (ou ampliando) o afeto ganho através de suas lentes (existenciais) de aumento ou diminuição. Quem pode dizer com segurança que sabe avaliar o amor recebido? Outras há, ainda, que só conseguem amar quando recebem amor, não admitindo dar sem receber. Há, também, o tipo de pessoa que não dará (amor) jamais, pois só sabe receber. E existe aquela outra que quer e precisa receber, porém não sabe o que fazer quando (e quanto) recebe e transforma-se, então, numa carência viva a andar por aí, em todos despertando (por insuspeitadas habilidades) o desejo de algo lhe dar.

 Receber o amor é como saber gastar (gostar?). Já reparou que há pessoas que não sabem gastar? Muitas sabem ganhar muito dinheiro, mas depois não o sabem gastar. Receber o amor é como saber gastar (gastar o amor de quem lhe está dando). É necessário fazer com que o investimento recebido renda frutos, juros e dividendos em que o recebe, para novos investimentos e lucros humanos. Há quem o saiba fazer (ou seja, saiba receber). Há quem não o saiba e gaste o (amor) recebido de uma só vez, sem qualquer noção do quanto custou para quem o deu.

 O problema de receber o amor é fundamental, porque ele determina o prosseguimento ou não da doação.

 O núcleo do problema está na forma pela qual cada pessoa recebe o amor, modelando-o.

 De que valerá um amor maior do que o mundo, se a forma pela qual se o recebe é diminuta? Um amor de pequena estatura doado a alguém pode ser recebido como a dádiva suprema. Será (soará), então, enorme!

 Daí que amor está também, além de dar, em saber receber. Saber receber, embora pareça passivo, é ativo. Receber, se possível avaliando a intensidade com que é dado e, se for mais possível, ainda, retribuir na exata medida. Saber receber é tão amar quanto doar um amor.

 Se todos soubessem receber, não haveria a graça infinita dos desencontros do amor, geradores dos encontros.

 Receber o amor é tão difícil quanto amar! É que amar desobriga e receber o amor parece que prende as pessoas, tutela-as e aprisiona-as quando deveria ser exatamente o contrário, pois saber receber é tão grandioso e difícil quanto saber dar.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Gosto Cresce Com Gostar



Depois de classificarmos as pessoas (sempre segundo à
nossa ótica, e nunca segundo elas mesmas), paralisamos o
conhecimento acerca delas, na impressão fixada. Elas passam a nos
parecer eternas repetidoras de situações, reações e atitudes: seres pleonásticos. Se formos capazes de romper a cristalização, vendo
e descobrindo a pessoa em ângulos novos, também ela se
contagiará com a nossa descoberta. Ela mesma fortalecerá esses
novos ângulos pelos quais as vemos e que são dela, senão não
teriam aparecido.

Somos seres de mistérios nos contágios.
Contagiamo-nos com o ângulo pelo qual nos vêem ou sentem. Somos bons com quem nos acha bom; inteligentes com quem inteligente nos
considera e maus com quem nos acha o ôfim da picada". Qual será essa relação estranha de nos contagiarmos da parte nossa pela qual somos
vistos, julgados e considerados?

E possuímos todas as partes que vêem em nós.
Quem não gosta do que somos ou de como somos faz-nos o favor de
revelar - de maneira exagerada e negativa, é certo -, as partes nossas
às vezes apenas subjacentes, ou disfarçadas, mas reais. Quem
gosta, faz idêntico favor: o de nos fortalecer nas partes
melhores. O fato é o contágio. Também contagiamos os que nos
julgam. Daí o mistério da afinidade. Aceitos, crescemos e
devolvemos crescimento, fazendo o outro crescer. Rejeitados,
encolhemos e fazemos encolher. Quando não gostamos de quem nos
desgosta, aumentamos o desgosto.

Não basta o outro mudar. É necessário que
também mudemos para nele descobrir partes desconhecidas. Se
enriquecermos a nossa visão do próximo com mais elementos, novos
filtros e lentes melhores que as habituais, vamos descobrir-lhe
paisagens belas e, assim, ajudá-lo a descobri-las, ele também. A
partir dessa sempre prematura e limitante catalogação, só nos
relacionamos com o que está no rótulo, jamais admitindo novas
combinações. Abrimos mão do esforço de descobrir partes dela não
exercitadas porque não conhecidas nem mesmo por ela.
Essa descoberta e revelação do ser maior
daquele que nos é familiar infelizmente só vem quando há perda,
abandono ou morte. Só vem quando já dá tempo. É preciso, pois, ver
além dos rótulos que fabricamos para os demais ou que eles mesmos determinaram. Essa descoberta do que existe, dorme, jaz ou lateja no ser humano, é um desafio talvez apenas possível no amor ou com amor,
mas, estranhamente, é a descoberta profunda do outro como o
próximo, vale dizer, como pedaço do eu. Autorizada pela
percepção e pelo reconhecimento, a melhor parte do outro começará a viver, porque o que é bom para quem amamos é bom para
nós. Gosto cresce com gostar.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Tudo Ruim Mas Tudo Bem



 O “tudo bem” é uma expressão profundamente brasileira. Somos um
  povo pacífico e acomodado. Término do romance, sem dinheiro,
  brigou com a família e, após contar a desgraça inteira, diz:
                            “Mas tudo bem”.

  Na verdade, preferimos fingir que não ligamos e secretamente
 diluir o que nos chateia ou oprime, a remover o mal sob forma
  cirúrgica. Para tal, o “tudo bem” cai como luva. Revela uma
    espécie de certeza de que nada é duradouro, tudo acabará
      modificado, por mais que a rigidez pareça dominar.            
 O “tudo bem” possui duas outras leituras que latejam por dentro
 de sua significação aparente. São elas: “Não faz mal” e “deixa
             comigo que adiante eu dou um jeito”.
                                    
 “Não faz mal” quer dizer “não importa”, “não há de ser nada”,
   “tentaram me atingir mas não conseguiram”. Quer, portanto, dizer:
    “Olha, eu não desistirei; estou apenas fingindo que não ligo”.
                                    
   O “deixa comigo que adiante eu dou um jeito” revela outra
  atitude sábia do chamado caráter nacional. Eis sua tradução detalhada palavra por palavra: “Eu sei que as coisas não duram. Sei, também, que, enquanto estão quentes, as pessoas se aferram. Não adianta forçar nessas horas. É esperar a emoção, o impulso, a vontade e a teimosia passarem e, na medida em que a realidade
  tiver atuado sobre elas, diluindo o rigor anterior, então a
   gente entra na brecha e vai fazendo do jeito que quiser”.
 Na medida, portanto, em que a expressão “tudo bem”, como espelho da maneira de ser, da psicologia, do caráter e do comportamento brasileiros, possui essas duas conotações revela algumas características
  (e até virtudes) da maneira de ser brasileira; paciência; teimosia;
  capacidade de esperar; certeza de que não fará o que não quer fazer;
   confiança nos seus próprios métodos; certeza de que a realidade é
 sempre complexa e acaba se impondo com a variedade de seus resultados;
 convicção de que mexer demais nas coisas acaba atrapalhando; percepção
     de que nada é duradouro; de que é necessário criatividade para
 impedir as deformações da imposição de qualquer certeza exagerada; fé no tempo como o grande e lúcido mediador das coisas; falta de pressa; e
     certeza na própria decisão. E, também, uma certa capacidade de perdoar e encontrar desculpas para as coisas e prosseguir. O lado sábio
   do brasileiro é enrustido. Por malandragem ele finge não existir.

 Que é tudo isso? Uma teoria de acomodação? Do deixa pra depois?
   Da alienação? Estarei teorizando sobre o conformismo, uma
       característica negativa da nossa maneira de ser?


  Se é o que você acha, leitor, então tudo bem, tudo bem: mais adiante a gente se entende, ou você me entende, ou eu o entendo, tudo bem, não esquente a cabeça e vá em frente que no fim acaba  dando tudo certo. Brasileiramente. Ainda bem; isto é,
                          tudo bem. Tudo bem?


                            Artur da Távola

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Causa ou Culpa


              Culpa! Culpa! Culpa! Sempre a palavra culpa. Faz parte dos genes do ser humano. Somos, todos, semoventes tristes, perseguidos por culpas reais,
irreais, fantásticas, conscientes, inconscientes, verdadeiras, falsas,
impostas pelos outros. Culpa! Culpa! Todos se culpam ou culpam aos
demais. Culpar-se ou culpar alguém, ou aos demais, eis uma preferência                               mundial...
                                 
Culpa, ó trágico engano de não se sabe que ancestral! Chama-se
de culpa o que as vezes é causa. Fulano não é o culpado de tal
ato. Fulano foi a causa de tal ato. Troque culpa por causa e
verá o mundo melhor. Causa não é culpa.
Chama-se de culpado quem às vezes é, tão somente, o responsável
por algo. Responsável, sim, não culpado! Culpa é algo maior e mais terrível, por isso é raro. Culpar não é tarefa dos homens.
Cabe aos deuses.
                                    
E por causa da troca de palavras (causa por culpa) sem consciência
de que se está trocando conceitos seriíssimos, pessoas passam pelo mundo atormentadas pela culpa. O mundo nada mais é que um grande tanque
cheio de culpados imaginários e reais, seres a quem foi ensinado
sentirem-se culpados, onde deveriam apenas sentir-se (quando muito)
causadores ou responsáveis.
                                    
Culpa é raro e sério demais para ser vulgarizada assim. É culpado quem mata. Não é culpado quem ama, mesmo se ama errado. É culpado quem ofende. Não é culpado quem defende. Não tem culpa
quem não pode fazer mais do que faz ou, quem foi relegado a
miséria, a ignorância, nem quem tenta e não consegue. Não é
culpado quem fracassa. Não é culpado nem o que erra. Culpa é assunto dos deuses.
                                    
 Por que infernizar a vida dos filhos, amigos e cidadãos dessa república de sonhos que é a vida, com a idéia torpe de uma culpa
geral, abissal, precedente, mortificadora? Por que a mania de buscar culpados para exorcizar os próprios medos?
                                    
Por uma falsa idéia de culpa mataram o Cristo. E todos os mártires e avatares.

Não somos culpados: somos vítimas, cheias de esperança e medo.
Somos, apenas, uma espécie rara de pessoas que mal se agüentam
consigo mesmas, por isso vivem à cata de culpas.


Que nasça a responsabilidade maior de cada ser humano no lugar
da culpa! Culpa é um legado doloroso de alguma angústia ancestral, alguma dor existencial ou doença muito séria, alguma imperfeição de nossa formação biológica, que é preciso arquivar.

                            Artur da Távola

terça-feira, 12 de junho de 2012

Quem Namora





Quem namora agrada a Deus.
Namorar é a forma bonita de viver um amor.
Não namora quem cobra nem quem desconfia.
Namora, quem lê nos olhos e sente no
coração as vontades saborosas do outro.

Namora, quem se embeleza em estado de amor.
Namora, quem suspira, quem não sabe
esperar mas espera, quem se sacode de taquicardia e timidez diante da paixão.
Namora, quem ri por bobagem,
quem sente frios e calores nas horas
menos recomendáveis.

Não namora quem ofende,
quem transforma a relação num inferno,
ainda que por amor.
Amor às vezes entorta, sabia?
E quando acontece, o feito pra bom faz-se ruim.
Não namora quem só fala em si e deseja
o parceiro apenas para a glória do próprio eu.

Não namora quem busca a compreensão
para a sua parte ruim.
O invejoso não namora. Tampouco o violento!
Namorados que se prezam têm a sua música.
E não temem se derreter quando ela toca.
Ou, se o namoro acabou, nunca
mais dela se esquecem.

Namorados que se prezam gostam de beijo,
suspiro, morderem o mesmo pastel, dividir
a empada, beber no mesmo copo.
Apreciam ternurinhas que matam
de vergonha fora do namoro
ou lhes parecem ridículas nos outros.

Por falar em beijo, só namora quem
beija de mil maneiras e sabe cada pedaço
e gostinho da boca amada.
Beijo de roçar, beijo fundo, inteirão,
os molhados, os de língua, beijo na testa,
no seio, na penugem,
beijo livre como o pensamento,
beijo na hora certa e no lugar desejado.
Sem medo nem preconceito.
Beijo na face, na nuca e aquele especial atrás
da orelha, no lugar que só ele ou ela conhece.

Namora, quem começa a ver
muito mais no mesmo que sempre viu
e jamais reparou.
Flores, árvores, a santidade, o perdão,
Deus tudo fica mais fácil para quem
de verdade sabe o que é namorar.
Por isso só namora
quem se descobre dono de um lindo amor.

Só namora quem não precisa explicar,
quem já começa a falar pelo fim,
quem consegue manifestar com
clareza e facilidade tudo o que
fora do namoro é complicado.

Namora, quem diz:
"Precisamos muito conversar";
e quem é capaz de perder tempo,
muito tempo,com a mais útil das
inutilidades e pensar no ser amado,
degustar cada momento vivido
e recordar palavras, fotos e carícias
com uma vontade doida de estourar o tempo
e embebedar-se de flores astrais.

Namora, quem fala da infância
e da fazenda das férias,
quem aguarda com aflição o telefone tocar
e dá um salto para atendê-lo
antes mesmo do primeiro "trim".
Namora, quem namora, quem à toa chora,
quem rememora,
quem comemora datas que o outro esqueceu.
Namora, quem é bom, quem gosta da vida,
de nuvem, de rio gelado e parque de diversões.

Namora, quem sonha, quem teima,
quem vive morrendo de amor
e quem morre vivendo de amar.

sábado, 2 de junho de 2012

Verdade e Mentira



Costuma-se dizer que “a mentira tem pernas curtas” e também que “no final, a verdade sempre aparece” . Parece-me que  o primeiro provérbio é menos verdadeiro que o segundo, pelo  menos em nossos dias. Vemos e ouvimos mentiras que fazem, impávidas, longas e vitoriosas caminhadas até que, um dia – e afinal – a verdade aparece. Nestes nossos dias de comunicação de  massa de um lado, e de dramática falta de credibilidade na  pessoa humana, de outro, um novo axioma vai surgindo e se  impondo: uma afirmação, uma vez feita, é muito difícil de ser desmentida, seja ou não verdadeira. Um fato uma vez revelado, perdura
em sua essência a despeito de quaisquer justificações.
Há, ainda, na vida, as danadas das meias verdades..
O princípio jurídico determina que in dubio pro reo , ou  seja, que a dúvida beneficie o acusado, ou trocado em miúdos, que  ninguém tem que provar a sua inocência, pois o ônus da prova cabe à  acusação. Infelizmente, na vida prática as coisas não correm assim. E generaliza-se a prática de lançar afirmações a torto e a direito, não apenas na vida política (a mais visada de todas), mas também no meio artístico (muito atingido), seguindo-se o mundo dos negócios para chegar até o relacionamento particular das pessoas. A palavra de ordem é gritar afirmações, o mais alto que puder, e de preferência acusações  contra inimigos, invejados, rivais, vitoriosos etc. Podem ser coisas sutis, que deixarão dúvidas por muito tempo; podem ser mentiras  grosseiras logo desmascaradas. Em qualquer caso, ficará um resquício da afirmação feita e a limpidez da verdade nunca será resposta.
Só o tempo a tudo aplaina, aplaca, explica, absolve.
Se é assim com as mentiras, muito mais com as verdades! Mesmo as que já não o são. O tempo e as circunstâncias podem determinar alterações profundas nos fatos e, principalmente, nas pessoas. Mas a verdade presente tem sempre menos força do que a anterior, quando, por lógica, deveria ser o contrário. É aí que se inverte o princípio jurídico e o inocente passa a ter de provar que não é mais culpado (nesse mais repousa todo o “x” da questão: ele foi culpado e as pessoas se perguntam ou perguntam umas às outras
 “por que teria ele mudado agora?”). Há mil respostas para essa pergunta, mas dificilmente alguma é suficientemente nítida para mudar a situação: o ex-culpado continua sendo culpado, até prova cabal de sua presente inocência. 
É assim no amor, na política, nos negócios, na vida particular. Antes, em qualquer desses campos, havia o temor de “ficar falado”, mas tudo se passava em círculos restritos. Hoje, ato impensado ou frase infeliz percorrem o mundo em segundos, via satélite. Consertar o ato, remendar a frase serão meros  paliativos de mal sem remédio. 
                                    
                        Artur da Távola

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O Diferente


Diferente não é quem pretenda ser. Esse é um imitador do que ainda não
foi imitado, nunca um ser diferente.

Diferente é quem foi dotado de alguns mais e de alguns menos em hora,
momento e lugar errados para os outros. Que riem de inveja de não serem
assim. E de medo de não agüentar, caso um dia venham, a ser. O diferente é
um ser sempre mais próximo da perfeição.

O diferente nunca é um chato. Mas é sempre confundido por pessoas menos
sensíveis e avisadas. Supondo encontrar um chato onde está um diferente,
talentos são rechaçados; vitórias, adiadas; esperanças, mortas. Um diferente
medroso, este sim, acaba transformando-se num chato. Chato é um diferente
que não vingou.

Os diferentes muito inteligentes percebem porque os outros não os
entendem. Os diferentes raivosos acabam tendo razão sozinhos, contra o mundo
inteiro. Diferente que se preza entende o porque de quem o agride. Se o
diferente se mediocrizar, mergulhará no complexo de inferioridade.

O diferente paga sempre o preço de estar - mesmo sem querer - alterando
algo, ameaçando rebanhos, carneiros e pastores. O diferente suporta e digere
a ira do irremediavelmente igual: a inveja do comum; o ódio do mediano. O
verdadeiro diferente sabe que nunca tem razão, mas que está sempre certo.

O diferente começa a sofrer cedo, já no primário, onde os demais de mãos
dadas, e até mesmo alguns adultos por omissão, se unem para transformar o
que é peculiaridade e potencial em aleijão e caricatura. O que é percepção
aguçada em : "Puxa, fulano, como você é complicado". O que é o embrião de um
estilo próprio em : "Você não está vendo como todo mundo faz? "

O diferente carrega desde cedo apelidos e marcações os quais acaba
incorporando. Só os diferentes mais fortes do que o mundo se transformaram
( e se transformam) nos seus grandes modificadores.

Diferente é o que vê mais longe do que o consenso. O que sente antes mesmo
dos demais começarem a perceber. Diferente é o que se emociona enquanto
todos em torno agridem e gargalham. É o que engorda mais um pouco; chora
onde outros xingam; estuda onde outros burram. Quer onde outros cansam.
Espera de onde já não vem. Sonha entre realistas. Concretiza entre
sonhadores. Fala de leite em reunião de bêbados. Cria onde o hábito
rotiniza. Sofre onde os outros ganham.

Diferente é o que fica doendo onde a alegria impera. Aceita empregos que
ninguém supõe. Perde horas em coisas que só ele sabe importantes. Engorda
onde não deve. Diz sempre na hora de calar. Cala nas horas erradas. Não
desiste de lutar pela harmonia. Fala de amor no meio da guerra. Deixa o
adversário fazer o gol, porque gosta mais de jogar do que de ganhar. Ele
aprendeu a superar riso, deboche, escárnio, e consciência dolorosa de que a
média é má porque é igual.

Os diferentes aí estão: enfermos, paralíticos, machucados, engordados,
magros demais, inteligentes em excesso, bons demais para aquele cargo,
excepcionais, narigudos, barrigudos, joelhudos, de pé grande, de roupas
erradas, cheios de espinhas, de mumunha, de malícia ou de baba. Aí estão,
doendo e doendo, mas procurando ser, conseguindo ser, sendo muito mais.

A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas
deslumbrantes que eles guardam para os pouco capazes de os sentir entender.
Nessas moradas estão tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são
capazes.

Não mexa com o amor de um diferente. A menos que você seja
suficientemente forte para suporta-lo depois."

Artur da Távola

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Coisas Que A Vida Ensina Depois Dos 40


Amor não se implora, não se pede não se espera...
Amor se vive ou não.
Ciúmes é um sentimento inútil. Não torna ninguém fiel a você.
Animais são anjos disfarçados, mandados à terra por Deus para
mostrar ao homem o que é fidelidade.
Crianças aprendem com aquilo que você faz, não com o que você diz.
As pessoas que falam dos outros pra você, vão falar de você para os outros.
Perdoar e esquecer nos torna mais jovens.
Água é um santo remédio.
Deus inventou o choro para o homem não explodir.
Ausência de regras é uma regra que depende do bom senso.
Não existe comida ruim, existe comida mal temperada.
A criatividade caminha junto com a falta de grana.
Ser autêntico é a melhor e única forma de agradar.
Amigos de verdade nunca te abandonam.
O carinho é a melhor arma contra o ódio.
As diferenças tornam a vida mais bonita e colorida.
Há poesia em toda a criação divina.
Deus é o maior poeta de todos os tempos.
A música é a sobremesa da vida.
Acreditar, não faz de ninguém um tolo. Tolo é quem mente.
Filhos são presentes raros.
De tudo, o que fica é o seu nome e as lembranças a cerca de suas ações.
Obrigada, desculpa, por favor, são palavras mágicas, chaves que
abrem portas para uma vida melhor
O amor... Ah, o amor...
O amor quebra barreiras, une facções,
destrói preconceitos,
cura doenças...
Não há vida decente sem amor!
E é certo, quem ama, é muito amado.
E vive a vida mais alegremente...

Artur Da Távola

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A Felicidade Possível - Artur Da Távola


Só quem está disposto a perder tem o direito de ganhar. Só o maduro é capaz da renúncia. E só quem renuncia aceita provar o gosto da verdade, seja ela qual for. O que está sempre por trás dos nossos dramas, desencontros e trambolhões existenciais é a representação simbólica ou alegórica do impulso do ser humano para o amadurecimento. A forma de amadurecer é viver. Viver é seguir impulsos até perceber, sentir, saber ou intuir a tendência de equilíbrio que está na raiz deles (impulsos). A pessoa é impelida para a aventura ou peripécia, como forma de se machucar para aprender, de cair para saber levantar-se e aprender a andar. É um determinismo biológico: para amadurecer há que viver (sofrer) as machucadelas da aventura e da peripécia existencial. A solução de toda situação de impasse só se dá quando uma das partes aceita perder ou aceita renunciar (e perder ou renunciar não é igual, mas é muito parecido; é da mesma natureza). Sem haver quem aceite perder ou renunciar, jamais haverá o encontro com a verdade de cada relação. E muitas vezes a verdade de cada relação pode estar na impossibilidade, por mais atração que exista. Como pode estar na possibilidade conflitiva, o que é sempre difícil de aceitar. Só a renúncia no tempo certo devolve as pessoas a elas mesmas e só assim elas amadurecem e se preparam para os verdadeiros encontros do amor, da vida e da morte. Só quem está disposto a perder consegue as vitórias legítimas. Amadurecer acaba por se relacionar com a renúncia, não no sentido restrito da palavra (renúncia como abandono), porém no lato (renúncia da onipotência e das formas possessivas do viver). Viver é renunciar porque viver é optar e optar é renunciar. Renunciar à onipotência e às hipóteses de felicidade completa, plenitude etc é tudo o que se aprende na vida, mas até se descobrir que a vida se constrói aos poucos, sobre os erros, sobre as renúncias, trocando o sonho e as ilusões pela construção do possível e do necessário, o ser humano muito erra e se embaraça, esbarra, agride, é agredido. Eis a felicidade possível: compreender que construir a vida é renunciar a pedaços da felicidade para não renunciar ao sonho da felicidade.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Despedida - Artur da Távola


Nunca se sabe onde está uma despedida. Até no afã do até logo pode esconder-se um nunca mais. Na frase infeliz, na simples conversa, algo pode estar morrendo, do amor ou da amizade.
Há despedidas que não são patentes. Não se lhes percebe o estalo do afastamento, que pode estar no instante de mau humor, na resposta infeliz, na alegria que não se repete ou na palavra que deixamos de dar e receber. Às vezes, está na palavra que dizemos.
Nem sempre as pessoas se separam: esgarçam-se às vezes. Viver esgarça. É algo que se afasta sem romper completamente. Também no que esgarça pode haver despedida pois, embora não haja perda de matéria, nunca mais será como antes.
Despedir-se é sutil, nem sempre aparece. Seres em mutação, vivemos a mudar sem saber. Na mudança, transforma-se em recordação o que antes era união e vontade, amizade ou convivência. Tudo faz-se retrato, álbum, caderno, poema, carta, saudade ou memória. A despedida não é por querer: acontece a despeito. Um simples "até já" pode conter inimagináveis nuncas. Ou sempres.
Maravilhosa e cruel a vida! Tudo pode acontecer. As ligações, salvo poucas, fazem-se precárias e falíveis. Nosso destino é preso a acontecimentos semicontroláveis. Ou impulsos, cansaços, e as discordâncias, são imprevisíveis. E geram despedidas antes insuperáveis.
Ninguém sabe de quem se afastará. Nem quais as amizades e amores de toda a vida, nada obstante existam. Raros captam a dor que estala em cada hipótese de despedida. Separar-se contém sempre a hipótese da despedida. Por isso, uma dor sempre se infiltra em cada afastamento. Algo se assusta, escondido em tudo o que se separa. Ainda que para ir ali pertinho e logo voltar.
Quem viaja ameaça a despedida. "Partir é morrer um pouco". Dizem os franceses, e com razão. Ainda que para encontrar-se depois, quem parte arrisca despedidas. Por isso, a emoção subjacente percorre-lhe o mistério e a "região das certezas absolutas".
As grandes despedidas dão-se - contudo - sem que o percebamos. As que sabemos e sofremos não são despedidas completas, pois a saudade e a memória hão de trazer de volta o sentimento genuíno que agora causa dor. As grandes despedidas infiltram-se no cotidiano e nos atos corriqueiros de cada dia sem ser percebidas. Muitos anos depois, vamos verificar que disfarçado em dia-a-dia ali estavam e estalavam saudades antecipadas, vários nuncas dos quais jamais suspeitamos. Nunca se sabe onde está uma despedida.
A não ser muito depois.


terça-feira, 2 de agosto de 2011

Aos Que Não Casaram - Artur da Távola


Aos que não casaram,
Aos que vão casar,
Aos que acabaram de casar,
Aos que pensam em se separar,
Aos que acabaram de se separar.
Aos que pensam em voltar...

Não existem vários tipos de amor, assim como não existem três tipos de saudades, quatro de ódio, seis espécies de inveja.
O AMOR É ÚNICO,
como qualquer sentimento, seja ele destinado a familiares, ao cônjuge ou a Deus.

A diferença é que, como entre marido e mulher não há laços de sangue,
A SEDUÇÃO
tem que ser ininterrupta...

Por não haver nenhuma garantia de durabilidade, qualquer alteração no tom de voz nos fragiliza, e de cobrança em cobrança, acabamos por sepultar uma relação que poderia
SER ETERNA

Casaram. Te amo pra lá, te amo pra cá. Lindo, mas insustentável. O sucesso de um casamento exige mais do que declarações românticas.
Entre duas pessoas que resolvem dividir o mesmo teto, tem que haver muito mais do que amor, e às vezes, nem necessita de um amor tão intenso. É preciso que haja, antes de mais nada,
RESPEITO.
Agressões zero.

Disposição para ouvir argumentos alheios. Alguma paciência... Amor só, não basta. Não pode haver competição. Nem comparações. Tem que ter jogo de cintura, para acatar regras que não foram previamente combinadas. Tem que haver
BOM HUMOR
para enfrentar imprevistos, acessos de carência, infantilidades.
Tem que saber levar.

Amar só é pouco.
Tem que haver inteligência. Um cérebro programado para enfrentar tensões pré-menstruais, rejeições, demissões inesperadas, contas para pagar.
Tem que ter disciplina para educar filhos, dar exemplo, não gritar.
Tem que ter um bom psiquiatra. Não adianta, apenas, amar.

Entre casais que se unem, visando à longevidade do matrimônio, tem que haver um pouco de silêncio, amigos de infância, vida própria, um tempo pra cada um.
Tem que haver confiança. Certa camaradagem, às vezes fingir que não viu, fazer de conta que não escutou. É preciso entender que união não significa, necessariamente, fusão.
E que amar "solamente", não basta.

Entre homens e mulheres que acham que
O AMOR É SÓ POESIA,
tem que haver discernimento, pé no chão, racionalidade. Tem que saber que o amor pode ser bom pode durar para sempre, mas que sozinho não dá conta do recado.

O amor é grande, mas não são dois.
Tem que saber se aquele amor faz bem ou não, se não fizer bem, não é amor. É preciso convocar uma turma de sentimentos para amparar esse amor que carrega o ônus da onipotência.
O amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta.

Um bom Amor aos que já têm!
Um bom encontro aos que procuram!
E felicidades a todos nós!

O Amor Maduro - Artur da Távola


O amor maduro não é menor em intensidade.
Ele é apenas silencioso.
Não é menor em extensão.
É mais definido colorido e poetizado.
Não carece de demonstrações.
Presenteia com a verdade do sentimento.
Não precisa de presenças exigidas.
Amplia-se com as ausências significativas.
O amor maduro tem e quer problemas, sim, como tudo.
Mas vive dos problemas da felicidade.
Problemas da felicidade são formas trabalhosas de construir o bem, o prazer.
Problemas da infelicidade não interessam ao amor maduro.
Na felicidade está o encontro de peles, o ficar com o gosto da boca e do cheiro do outro - está a compreensão antecipada, a adivinhação, o presente de valor interior, a emoção vivida em conjunto, os discursos silenciosos da percepção, o prazer de conviver, o
equilíbrio de carne e de espírito.
O amor maduro é a valorização do melhor do outro e a relação com a parte salva de cada pessoa.
Ele vive do que não morreu, mesmo tendo ficado para depois, vive do que fermentou
criando dimensões novas para sentimentos antigos, jardins abandonados, cheios de sementes.
Ele não pede, tem.
Não reivindica, consegue.
Não percebe, recebe.
Não exige, oferece.
Não pergunta, adivinha.
Existe, para fazer feliz.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Amar Bonito - Artur da Távola


Talvez seja tão simples, tolo e natural que você nunca tenha parado para pensar:
Aprendam a fazer bonito seu amor.
Ou fazer o seu amor ser ou ficar bonito.
Aprenda, apenas, a tão difícil arte de amar bonito.
Gostar é tão fácil que ninguém aceita aprender...
Tenho visto muito amor por aí.
Amores mesmo: bravios, gigantescos, descomunais, profundos, sinceros, cheios de entrega, doação e dádiva.
Mas esbarram na dificuldade de se tornar bonitos.
Apenas isso: bonitos, belos ou embelezados, tratados com carinho, cuidado e atenção.
Amores levados com arte e ternura de mãos jardineiras.
Aí, esses amores que são verdadeiros, eternos e descomunais, de repente se percebem ameaçados e tão somente porque não sabem ser bonitos: cobram, exigem, rotinizam,descuidam, reclamam, deixam de compreender, necessitam mais do que oferecem, precisam mais do que atendem, enchem-se de razões.
Sim, de razões.

Ter razão é o maior perigo no amor.
Quem tem razão sempre se sente no direito (e o tem) de reivindicar, de exigir justiça, equidade, equiparação, sem atinar que o que está sem razão talvez passe por um momento de sua vida no qual não possa ter razão.
Nem queira!!!
Ter razão é um perigo: em geral, enfeia um amor, pois é invocado com justiça, mas na hora errada.
Amar bonito é saber a hora de ter razão.
Ponha a mão na consciência. Você tem certeza de que está fazendo o seu amor bonito?
De que está tirando do gesto, da ação, da reação, do olhar, da saudade, da alegria do encontro, da dor do desencontro a maior beleza possível?
Talvez não.
Cheio ou cheia de razões, você separa do amor apenas aquilo que é exigido por suas partes necessitadas, quando talvez dele devesse pouco esperar, para valorizar melhor tudo de bom que de vez em quando ele pode trazer.
Quem espera mais do que isso sofre e, sofrendo, deixa de amar bonito.
Sofrendo, deixa de ser alegre, igual, irmão, criança.
E sem soltar a criança, nenhum amor é bonito.
Não tema o romantismo. Derrube as cercas da opinião alheia.
Faça coroas de margaridas e enfeite a cabeça de quem você ama.
Saia cantando e olhe alegre.
Recomenda-se: encabulamentos, ser pego em flagrante gostando, não se cansar de olhar e olhar, não atrapalhar a convivência com teorizações, adiar sempre se possível com beijos 'aquela conversa importante que precisamos ter', arquivar, se possível, as reclamações pela pouca atenção recebida.
Para quem ama, toda atenção é sempre pouca.
Quem ama feio não sabe que pouca atenção pode ser toda a atenção possível.
Quem ama bonito não gasta tempo dessa atenção cobrando a que deixou de ter.
Não teorize sobre o amor (deixe isso para nós, pobres escritores que vemos a vida como criança de nariz encostado na vitrine cheia de brinquedos dos nossos sonhos); não teorize sobre o amor, ame.
Siga o destino dos sentimentos aqui e agora.
Não tenha medo exatamente de tudo o que você teme, como: a sinceridade, abrir o coração, contar a verdade do tamanho do amor que sente; não dar certo e depois vir a sofrer (sofrerá de qualquer jeito).
Jogue pro alto todas as jogadas, estratagemas, golpes, espertezas, atitudes sabiamente eficazes (não é sábio ser sabido): seja apenas você no auge de sua emoção e carência, exatamente aquele você que a vida impede de ser.
Seja você cantando desafinado, mas todas as manhãs.
Falando besteiras, mas criando sempre.
Gaguejando flores.
Sentindo o coração bater como no tempo do Natal infantil.
Revivendo os caminhos que intuiu em criança.
Sem medo de dizer eu quero, eu estou com vontade.
Deixe o seu amor ser a mais verdadeira expressão de tudo que você é.
Se o amor existe, seu conteúdo já é manifesto.
Não se preocupe mais com ele e suas definições.
Cuide agora da forma do amor:
Cuide da voz.
Cuide da fala.
Cuide do cuidado.
Cuide de você.
Ame-se o suficiente para ser capaz de gostar do amor e só assim poder começar a tentar fazer o outro feliz.

Afinidade - Arthur da Távola


A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil,
delicado e penetrante dos sentimentos.
O mais independente.
Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos,
as distâncias, as impossibilidades.
Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação,
o diálogo, a conversa, o afeto, no exato ponto em que foi interrompido.
Afinidade é não haver tempo mediando a vida.
É uma vitória do adivinhado sobre o real.
Do subjetivo sobre o objetivo.
Do permanente sobre o passageiro.
Do básico sobre o superficial.
Ter afinidade é muito raro.
Mas quando existe não precisa de códigos verbais para se manifestar.
Existia antes do conhecimento, irradia durante e permanece depois
que as pessoas deixaram de estar juntas.
O que você tem dificuldade de expressar a um não afim, sai simples
e claro diante de alguém com quem você tem afinidade.
Afinidade é ficar longe pensando parecido a respeito dos mesmos
fatos que impressionam, comovem ou mobilizam.
É ficar conversando sem trocar palavra.
É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento.
Afinidade é sentir com.
Nem sentir contra, nem sentir para, nem sentir por, nem sentir pelo.
Quanta gente ama loucamente, mas sente contra o ser amado.
Quantos amam e sentem para o ser amado, não para eles próprios.
Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo.
É olhar e perceber.
É mais calar do que falar.
Ou quando é falar, jamais explicar, apenas afirmar.
Afinidade é jamais sentir por.
Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo.
Mas quem sente com, avalia sem se contaminar.
Compreende sem ocupar o lugar do outro.
Aceita para poder questionar.
Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar.
Só entra em relação rica e saudável com o outro,
quem aceita para poder questionar.
Não sei se sou claro: quem aceita para poder questionar,
não nega ao outro a possibilidade de ser o que é, como é, da maneira que é.
E, aceitando-o, aí sim, pode questionar, até duramente, se for o caso.
Isso é afinidade.
Mas o habitual é vermos alguém questionar porque não aceita
o outro como ele é. Por isso, aliás, questiona.
Questionamento de afins, eis a (in)fluência.
Questionamento de não afins, eis a guerra.
A afinidade não precisa do amor. Pode existir com ou sem ele.
Independente dele. A quilômetros de distância.
Na maneira de falar, de escrever, de andar, de respirar.
Há afinidade por pessoas a quem apenas vemos passar,
por vizinhos com quem nunca falamos e de quem nada sabemos.
Há afinidade com pessoas de outros continentes a quem nunca vemos,
veremos ou falaremos.
Quem pode afirmar que, durante o sono, fluidos nossos não saem
para buscar sintomas com pessoas distantes,
com amigos a quem não vemos, com amores latentes,
com irmãos do não vivido?
A afinidade é singular, discreta e independente,
porque não precisa do tempo para existir.
Vinte anos sem ver aquela pessoa com quem se estabeleceu
o vínculo da afinidade!
No dia em que a vir de novo, você vai prosseguir a relação
exatamente do ponto em que parou.
Afinidade é a adivinhação de essências não conhecidas
nem pelas pessoas que as tem.
Por prescindir do tempo e ser a ele superior,
a afinidade vence a morte, porque cada um de nós traz afinidades
ancestrais com a experiência da espécie no inconsciente.
Ela se prolonga nas células dos que nascem de nós,
para encontrar sintonias futuras nas quais estaremos presentes.
Sensível é a afinidade.
É exigente, apenas de que as pessoas evoluam parecido.
Que a erosão, amadurecimento ou aperfeiçoamento sejam do mesmo grau,
porque o que define a afinidade é a sua existência também depois.
Aquele ou aquela de quem você foi tão amigo ou amado, e anos depois
encontra com saudade ou alegria, mas percebe que não vai conseguir
restituir o clima afetivo de antes,
é alguém com quem a afinidade foi temporária.
E afinidade real não é temporária. É supratemporal.
Nada mais doloroso que contemplar afinidade morta,
ou a ilusão de que as vivências daquela época eram afinidade.
A pessoa mudou, transformou-se por outros meios.
A vida passou por ela e fez tempestades, chuvas,
plantios de resultado diverso.
Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças,
é conversar no silêncio, tanto das possibilidades exercidas,
quantos das impossibilidades vividas.
Afinidade é retomar a relação do ponto em que parou,
sem lamentar o tempo da separação.
Porque tempo e separação nunca existiram.
Foram apenas a oportunidade dada (tirada) pela vida,
para que a maturação comum pudesse se dar.
E para que cada pessoa pudesse e possa ser, cada vez mais,
a expressão do outro sob a forma ampliada e
refletida do eu individual aprimorado.